JESUS, O MESSIAS, O FILHO DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao
narrar o nascimento virginal de Jesus (Mt 1,18-24) o grande intuito
de São Mateus foi deixar bem claro que Ele era, verdadeiramente,
o Messias, o Filho de Deus. Concebido do Espírito Santo
(v. 20), Ele “salvará o seu povo de seus pecados (v. 21),
asseverou o anjo a José, o qual, deste modo, compreendeu
a gravidez de sua esposa. O Natal oferece oportunidade para se
firmar a fé no Messias, o Filho de Deus, que veio “para
que todos tivessem a vida e a tivessem em abundância” (Jo
10,10). Foi após a Ressurreição que a Igreja
pôde anunciar que Jesus era, realmente, o Salvador prometido,
verdade, desde então, livre de qualquer equívoco,
ou seja, sem o perigo de ser Ele entendido numa perspectiva temporal.
Ao vencer a morte, Jesus deu uma prova definitiva de sua divindade.
Ele, verdadeiro filho de Davi, destinado, desde a sua concepção,
a receber o trono do ilustre rei, para levar a seu termo a realeza
israelita, estabelecendo na terra o “Reino de Deus”. Daí
o vibrante discurso de Pedro no qual ele solenemente asseverou:
“Reconheça, pois, firmemente toda a casa de Israel que
a ele justamente Deus constituiu Senhor e Messias, esse Jesus
que vós crucificastes” (At 2,36).
Deste modo, é preciso entender o mistério natalino
integralizado em toda a vida de Cristo. Isto conduz, fatalmente,
a uma visão perfeita da missão daquela criancinha
inerme, deitada numa pobre manjedoura, e à adoração
da mesma por ser ela Deus e homem verdadeiro. As heresias cristológicas
surgiram exatamente pelo fato de não se atinar com a união
hipostática, isto é, a união da natureza
divina e da natureza humana na Pessoa eterna do Verbo de Deus.
A consideração apenas da divindade ou somente da
humanidade de Jesus desvirtua todo o mistério da Encarnação
e foi e será sempre fonte de lamentáveis heresias.
Adite-se que é mister evitar absorver o divino no humano
ou o humano no divino em Cristo. No seu magnífico livro
Jesus de Nazaré o Papa Bento XVI mostra claramente que
o esquecimento da história de Jesus apresentada nos Evangelhos
é um erro de fundas conseqüências.
Seria uma mutilação deixar de focalizar o Jesus
histórico. Por outro lado não se pode estabelecer
a cisão entre o “Jesus histórico” e o “Cristo da
fé”, numa afirmativa, inteiramente desprovida de fundamento,
de que a crença na sua divindade só depois se formou
na mente dos cristãos. Donde a assertiva do Papa: “Penso
que precisamente este Jesus – o dos Evangelhos – é uma
figura racional e manifestamente histórica”.
Portanto, é preciso contemplar naquele menino nascido em
Belém uma personagem histórica real, evitando resvalar
para uma figura mítica, mas acreditando que Ele é
verdadeiramente a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade,
como declarou São João: “O Verbo de Deus se fez
carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Esta declaração
joanina impede que se caia nos extremos: de um lado só
valorizar a divindade de Cristo e, de outro, apenas salientar
sua humanidade. Não se pode esquecer sua dimensão
transcendente ou identidade como Filho único de Deus, nem
abandonar sua figura humana.
Jesus não é mero eco das aspirações
humanas, ou simples resposta às inquietudes do ser pensante,
mas luz divina que brilhou nas trevas (Jo 1,5). No Presépio
deparamos uma nova humanidade que fulge em Cristo, advindo do
mistério de Deus que quer salvar os homens. A encarnação
flui de uma decisão amorosa e eterna do Pai, pela qual
projetou para fora sua própria intimidade trinitária
divina. Donde a belíssima expressão de São
João: “Deus é amor” (1 Jo 4,16). O Natal deve fixar
todos estes aspectos cristológicos e trinitários.
A adesão ao Menino Jesus leva necessariamente a manifestar
o rosto que o Espírito Santo, recebido no batismo e na
crisma, vai modelando em cada coração, o qual se
imerge na misericórdia do Pai. Não se pode desvincular
o nascimento de Jesus de seu plano global de salvação.
Esta, porém, se insere na missão messiânica
e divina daquele que se fez semelhante aos homens para os tornar
filhos de Deus.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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