JESUS LANÇA SUA MISSÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Tendo
passado sua infância em Nazaré, Jesus entrou na História
como o Nazareno. Lá no alto da Cruz foi colocada esta inscrição:
“Jesus, o Nazareno, rei dos Judeus” (Jo 19,19). Registrou São
Mateus: “Ao entrar em Jerusalém, comoveu-se a cidade inteira
e perguntava: “Quem é este?” Respondiam as turbas: “É
o profeta Jesus, de Nazaré, da Galiléia” (Mt 21,10).
Nos Atos dos Apóstolos o próprio Jesus assim se
intitula, pois assim se manifestou a Paulo: “Eu sou Jesus Nazareno
a quem tu persegues” (At 22,8). Pedro dirá abertamente
ao coxo que almejava a cura: “Em nome de Jesus Cristo Nazareno,
levanta-te e anda” (At 4,10). Aos discípulos de Emaús,
Cristo perguntou sobre o que falavam pelo caminho e eles disseram:
“A respeito de Jesus Nazareno, que foi profeta poderoso em obras
e palavras, diante de Deus e de todo o povo” (Lc24,19).
Pois bem, para proclamar solenemente sua missão Jesus escolheu
exatamente a Sinagoga de Nazaré (Lc 4,14-22). Foi o lugar
de sua primeira homilia. Havia sido entregue a Ele o volume do
profeta Isaías (Is 61-2). Dirá nitidamente: “Hoje
se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”. Portanto,
ele fora ungido pelo Espírito do Senhor e era, em conseqüência,
profeta, rei, sacerdote, evidentemente num sentido espiritual,
não terreno.
Ele era o Messias prometido.Viera, de fato, anunciar a boa-nova
aos pobres, ou seja, aos desapegados dos bens transitórios
desta terra, a libertação dos cativos do Inimigo
infernal. Daria a vista aos cegos, como o fez em muitos milagres,
mas, sobretudo, faria os cegos espirituais contemplarem as maravilhas
de Deus. Poria em liberdade os oprimidos pelas injustiças
humanas, afiançando-lhes a salvação eterna
e um justo juízo do Pai que O enviara.
Raiariam tempos novos de redenção e de graças.
Ele estava na terra numa missão de libertação,
de luz e de misericórdia. Diz São Lucas que seus
compatriotas tinham os olhos fixos nele e admiravam suas palavras.
Pena que ficaram apenas na admiração, dado que,
em seguida, levados pela ira o expulsariam para fora da cidade
e, até, o queriam matar. Isto é um alerta, dado
que não se pode viver numa religiosidade sentimental, desejando
fortes emoções no contacto com Deus, nos momentos
celestiais das preces ou da leitura piedosa da Bíblia.
Cumpre profunda humildade que leve ao acatamento total de tudo
que Jesus declarou, numa situação de quem sabe que
é solidário com todas as exigências do Mestre
divino e procura ter consciência das decorrências
espirituais e sociais de seus princípios e atitudes dentro
dos parâmetros do Evangelho. É preciso uma identificação
não apenas com Jesus, o Profeta ungido pelo Espírito,
mas também com aqueles que este Profeta deseja atingir:
os pobres, os cativos, os cegos, os oprimidos.
Quantos neste mundo são pobres de esperança e alegria
e estão à espera de uma palavra amiga que lhes traga
ânimo e coragem. Àqueles que estão aprisionados
com cadeias mundanas a lhes prenderem o coração,
anestesiado por falsas ilusões, é mister levar a
liberação que o Redentor oferece.
Aos cegos de espírito é necessário envolver
“na Luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo”
(Jo 1,9), o meigo Rabi da Galiléia. Muitos são os
que se encontram sob o jugo de horrípilas paixões,
escravos de seus erros e, apenas Cristo, tem o poder de soltar
as algemas que prendem numa servidão ignóbil, mas
a ação evangelizadora do batizado é que possibilita
o Bom Pastor se aproximar dos que precisam ser emancipados do
mal.
Os que forem assim atingidos pela atuação salvífica
daquele que venceu o Maligno e suas artimanhas, por certo, tendo
conhecido o amor sem fronteiras do verdadeiro amigo, sem retornos
aos males, sem lassidão, com perseverança, terão
sempre “os olhos fixos nele”, empenhados na vivência plena,
total, absoluta de suas diretrizes. Deste modo, conhecerão
as bem-aventuranças por Ele, um dia, proclamadas (Mt 5
1-12), se vendo envoltos na ventura mais inebriante.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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