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AMOR E PERDÃO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


     
No episódio da pecadora no banquete oferecido a Jesus (Lc 7,36-8,3) impressionam estas suas palavras ao anfitrião: "Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama". (Lc 7,47) Como profeta do amor e tendo todo o poder Cristo podia fazer tal assertiva. Há, aliás, uma correlação profunda entre amor e perdão.Uma grande pecadora aos pés do Mestre divino num gesto de rara fidalguia a lhe ungir os pés com perfume e depositando neles ósculos, signos de profundos sentimentos de respeito e amor.
      Sua consciência estava pesada com graves erros morais e ela intentava acalmar as turbulências do remorso com uma atitude de humildade e profunda dileção para com o notável taumaturgo cuja fama, por certo, conhecia. Como o Redentor nunca deixa de retribuir às menores manifestações de arrependimento ela ficaria inteiramente remida de suas faltas. O próprio Cristo exaltou o fundamento desta anistia espiritual: “Vai em paz, a tua fé de salvou”. Tanta afeição que a levava a lágrimas salvíficas, sua reverência ante a falta de atenção do fariseu a quem Jesus recrimina atrai o perdão divino, precedido pelo amor demonstrado ao Filho de Deus.
      O fariseu no seu interior recriminava quer a Jesus, o qual, segundo ele não era Profeta por ignorar o tipo de mulher que ali estava, bem como era rígido no seu julgamento por desprezar aquela deserdada da sociedade. Um pecador julgando uma pecadora e ambos vão receber a resposta de Cristo: o fariseu uma lição de cortesia, de complacência, de longanimidade; a pecadora uma anistia total de seus erros morais! Pedagogo extraordinário, através de uma narrativa força a resposta do fariseu e aplica imediatamente a lição à penitente que estava a seus pés.
      Que júbilo a daquela mulher ao ouvir estas sublimes palavras: “Teus pecados são perdoados, por causa de um grande amor” (v. 47-48). Sentença não banal, mas frase que liberta, que abre novos caminhos, que oferece esperança. Ali estava, de fato, o arauto do perdão e do amor, amor que é confiança na dinâmica da fé! Aquela mulher viera até Jesus para lhe declarar sua miséria e sua expectativa de uma nova existência e recebe uma maravilhosa resposta daquele que veio salvar os que estavam perdidos.
      Felizes os que, não obstante suas iniqüidades, acorrem a Cristo que nunca deixa de retribuir aos menores atos de um incipiente arrependimento. Ele quebra todas as barreiras e todos os preconceitos. Jesus acolhia e perdoava alguém que era desprezada e desprezível aos olhos orgulhosos do fariseu. Ele não exclui ninguém, mas exige sempre muita sinceridade, humildade, dileção entranhada. Não há unanimidade entre os hermeneutas sobre quem seria a pecadora que demonstrou tantas virtudes. Segundo São João (12,3) é Maria, irmã de Marta e de Lázaro. Não se sabe com certeza se seria a mesma Maria de Mágdala e esta mulher a que se refere São Lucas.
      O que interessa, porém, são os ensinamentos desta cena admirável. A conversão do coração é a grande mensagem em tela. Um mergulho na misericórdia do Coração de Cristo. Simão não convidara Jesus por amizade e simpatia e nem lhe ministrara o mínimo de atenção exigida pela etiqueta de então, lavando-lhe os pés, dando-lhe o abraço de saudação e nem lhe perfumou a cabeça. Ele havia convidado Jesus mais por curiosidade e para apanhá-lo em suas palavras através de indagações provocadoras. Como, além disto, enorme era a fama do meigo Rabi da Galiléia, o fato de recebê-lo era motivo de ostentação diante de toda a Betânia.
      Jesus, porém, penetrava fundo nas intenções de seus interlocutores e sabia bem quem era Simão. Como os gestos falam mais do que as palavras e exprimem o fundo do coração, Cristo valorizou os atos daquela que era desprezada, mas que aspirava a compaixão daquele que operava milagres estupendos e se mostrara sempre bondoso e compassivo. Davi já havia proclamado no salmo 50: “Um coração contrito e humilhado, Deus nunca despreza”!

                                                           * Professor no Seminário de Mariana - MG

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