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A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


     
Renan, escritor, filósofo, filólogo e historiador francês que escreveu uma controvertida obra sobre a vida de Jesus numa visão inteiramente racionalista afirma, no entanto, que a história do Filho Pródigo é a mais bela página da literatura universal. Razão tem o literato francês e esta sua opinião é ratificada por inúmeros outros escritores.
      A narração feita pelo Mestre divino (Lc 15, 1-32) é de uma concisão, de um vigor, de uma movimentação descritiva incomparáveis, apresentando mensagens profundas.
      Esta parábola, narrada magistralmente por Cristo, tem comovido os corações através dos tempos e atraído inúmeros pecadores ao regaço misericordioso de Deus, sempre pronto a perdoar.
      O filho desvairado que parte, deixa em frangalhos o coração paterno, que dissipa toda sua fortuna e se vê nas fronteiras do desespero. Venturoso o instante em que ele “entrou dentro de si”. Ele se examinou e reconheceu o seu erro. O contraste entre o que era e o que é, entre as alegrias da mansão do pai e a miséria em que se afundara, é por demais chocante. Toma a decisão que o conduzirá a uma surpresa venturosa. Voltará à casa do pai, mas será sincero e humilde, pois quer estar lá não já como filho, mas como o mais simples empregado. Reconhece-se indigno pelo que fizera: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. Pelas iniqüidades que praticara há de se penitenciar, mas percebe que só terá tranqüilidade junto da proteção paterna.
      A cena do reencontro entre pai e filho é comovente e encantadora. Ao contrário de recriminações ele depara a compreensão. Ao invés de desprezo encontra o afeto de um pai terno e compassivo. Este lhe troca os andrajos por uma rica túnica. Além disto: sandálias, anel e um banquete!
      O arrependimento interior, formal, decisivo, eficaz é então premiado. O pai percebe a profundidade da sua sinceridade nesta admirável declaração daquele que se penitencia: “Não sou digno de ser mais chamado teu filho”. Ele confessou abertamente sua falta: “Pai, pequei”.
      A conduta do filho mais velho, contudo, merece, outrossim, considerações especiais. Toma atitude diametralmente oposta à do pai. Deixa-se levar pela indignação.Revela-se egoísta. Fechado dentro de si mesmo. Não mostrou a mínima complacência com o irmão que errara. Isto o levou à falta de caridade para com ele e de respeito e obediência para com o pai a quem inclusive censura por ser tão generoso. O pai não se irrita. Tem o mesmo gesto de bondade e lhe pede participe da festa em honra do irmão que se perdera, mas que voltara.
      Os personagens fazem fulgir o que acontece tantas vezes: Deus é, em todas as ocasiões, clemente e misericordioso. Aqueles que se transviam, agindo como o filho pródigo, encontram junto dele a remissão completa, total, quando há a conversão autêntica do coração.
      É a “metanóia” salvadora., mudança completa de mentalidade.Muitos são os que julgam o próximo com os moldes do filho mais velho da parábola, isto é com severidade, com dureza, sem comiseração. Quando o filho rebelde “entrou dentro de si”, ele recebia inspiração redentora. Quantas vezes Deus envia recados misteriosos! É a voz da consciência a chamar os novos caminhos; ou do arrependimento ou de melhoria de vida, numa santificação mais profunda. Felizes os que sabem captar a mensagem do Senhor. É Cristo a bater à porta do coração humano. Urge uma correspondência e uma decisão corajosa e pronta.

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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