AMAR OS INIMIGOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Depois
do primórdio de seu ministério público, na
Galiléia, após os primeiros milagres e iniciais
ensinamentos, em seguida ao chamado dos discípulos e a
escolha dos Doze, o extenso discurso abrindo o capítulo
sexto do Evangelho de São Lucas acentua em plenitude o
ensinamento novo de Cristo. À multidão que se reunia,
impressionada pela autoridade e pelos grandiosos feitos do homem
de Nazaré, é ministrada uma doutrina inteiramente
desconhecida na qual o amor dos inimigos é ponto fundamental.
Mesmo a regra aurífera “Fazei ao outro o que vós
quereríeis que se vos fizesse” (Mt 7,12: Lc 6,31) é
comum aos preceitos do Rabbi Hiller colocados por escrito no Talmud
de Babilônia. No que tange à dileção
aos adversários, devendo estes serem indultados pela pessoa
ofendida, não há paralelo nas lições
dos mestres anteriores a Jesus. Era algo inaudito. No espírito
dos ouvintes de Cristo pairou uma dupla reação:
como compreender tal diretriz e de que modo a praticar.
Jesus daria o fundamento de seu preceito e o modo de colocá-lo
em prática: “Deus é bondoso ... Sede misericordiosos
como também vosso Pai é misericordioso (Lc 635-36).
Estas palavras de Cristo fazem remontar ao que o Ser Supremo ordenou
no Sinai: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19,2). Jesus veio
a este mundo para explicar o que é ser perfeito diante
da divindade. Neste seu sermão inaugural mostra o cerne
desta santidade que é a imitação da comiseração
divina. Deus é um Pai e não um Juiz inexorável.
Revela sempre indulgência medicinal, mais do que judiciária.
Cristo acrescentou: “ Com a mesma medida com que medirdes os outros,
vós também sereis medidos”.
Abundantes bênçãos celestes são conseqüências
da doação generosa e do perdão cordial. Norma
difícil, mas o amor dos inimigos é uma manifestação
desta superabundância da caridade de Deus que não
busca nunca seu próprio interesse, mas o das suas criaturas
que Ele tanto preza. Como outrora, muitos cristãos de hoje
repetem o que mais tarde Jesus escutará: “Esta palavra
é dura, quem a pode escutar”? (Jo 6,60).
O que na Galiléia Ele ensinou, Ele colocaria em prática
em Jerusalém, dando total significação a
esta regra de conduta. Ele que foi preso no Jardim de Getsêmani,
injustamente condenado à morte, flagelado, insultado, após
um trajeto horripilo pela Rua da Amargura barbaramente crucificado,
do alto da Cruz lançaria diante de seus opressores uma
das mais belas e comoventes preces: “Pai, perdoai-lhes porque
não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Verdadeira epifania
da pregação feita! Jesus se torna então o
ícone da misericórdia do Pai, o verdadeiro doutor
do amor aos inimigos. Fazia visível a complacência
do Todo-Poderoso.
A eficácia espiritual de uma tal maneira de se conduzir
depende, porém, de um ato de fé na sabedoria eterna
do Redentor, o qual inclusive na oração que ensinou
aos Apóstolos colocou como condição do perdão
de Deus o perdão que se dá ao próximo (Mt
6,12). A insistência do Salvador em fixar o sublime gesto
da anistia total ao ofensor é porque ele sabia perfeitamente
que tal indulto não é conatural à natureza
humana.
O cristão, contudo, no dia seu batismo, liberto das garras
do Pai do Ódio que é satanás, tem dentro
de si a energia espiritual para levar de vencida as invectivas
recebidas. Foi assim que Santa Terezinha, por exemplo, se inundou
no amor às demais religiosas, superando qualquer aversão.
Deixou escrito: “O que me modificou foi Jesus oculto no fundo
de minha alma, Jesus que faz suave o que há de mais amargo”.
È certo que muitos se queixam do fato de perceberem, apesar
do perdão, um certo ressentimento, uma determinada mágoa.
Entretanto, se o fiel não deseja o mal para seu inimigo
e até ora por ele, é sinal de que houve o perdão
até chegar o momento venturoso em que saberá abraçar
o desafeto, manifestando-lhe que a injúria foi esquecida.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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