OS DOIS IRMÃOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No
seu livro “Jesus de Nazaré” o papa Bento XVI tece comentário
profundo sobre a parábola dos dois irmãos, ou seja,
o filho pródigo e o que ficou em casa. Observa que alguns
autores julgam que esta narrativa melhor seria designada como
a parábola do Pai bondoso, figura também destacada
por Cristo.
Lembra
que os Padres da Igreja bem atinaram com o pormenor de que o filho
mais novo “vai para uma terra distante”, assinalando deste modo
“o interior alheamento do mundo do pai - o mundo de Deus, a ruptura
interior da relação, a extensão do afastamento
do que é próprio e do que é autêntico”.
O filho pródigo se mostra um dissipador, “esbanja a “sua
essência”, a si mesmo”.
Perde
tudo e “aquele que se tornara totalmente livre, se torna agora
escravo: guardador de porcos, o qual seria feliz se recebesse
o comer dos porcos como alimento”. Exara então Bento XVI
uma admirável reflexão sobre o mau uso do livre
arbítrio: “O homem que entende a liberdade como radical
arbitrariedade da própria vontade e do próprio caminho
vive na mentira [...] Por isso, uma falsa autonomia conduz à
escravidão”. O papa patenteia então como foi dolorosa
a peregrinação interior do filho pródigo
até à “conversão”, até o retorno à
casa do pai. De
fato, a metamorfose se deu no momento em que o esbanjador iludido
com os falsos prazeres reconheceu sua miséria interior
e exterior e pôde, arrependido, exclamar: "Levantar-me-ei
e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu
e contra ti" (Lc 15,18). Reconheceu que estava num miserando
abismo. Era preciso ter coragem para se erguer e reparar o erro
diante de seu progenitor. Analisando a atitude paterna assim se
expressa Bento XVI: “O pai “vê o filho de longe” e vai ao
seu encontro.
Ele
ouve a confissão do filho e vê assim o caminho interior
que o filho percorreu, vê que este encontrou a vereda da
verdadeira liberdade”. Jesus salientou bem como o pai reconstitui
o filho, assim arrependido, no seu status anterior: "Mas
o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha,
e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés"(Lc
15,22). Comenta então o papa que Cristo nos dá uma
visão de Deus sempre repleto de “compaixão”, mudando
o castigo em perdão.
Acrescenta,
porém, que há, outrossim, uma cristologia implícita
nesta atitude do Pai celeste, pois Jesus havia dito: "Eu
e o Pai somos um" (Jo 10,30). Ninguém pode, realmente,
duvidar da bondade imensa deste oceano de infinito amor que é
o Coração de Jesus, continuamente pronto a anistiar
os pecadores arrependidos. Finalmente, Bento XVI faz uma análise
da triste atitude do filho mais velho que ficou “muito zangado”.
Faz
uma queixa que revela toda sua revolta: "Ele, então,
respondeu ao pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais
transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para
festejar com os meus amigos" (Lc 15,29). É que ele
“não conhece a graça do que significa estar em casa,
da verdadeira liberdade, que ele como filho tem”. Não entendia
a grandeza da filiação e, por isto, "explicou-lhe
o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é
meu é teu".(Lc 15,31).
Aqui
vale uma viagem interior de cada um, indo lá dentro de
si mesmo para verificar se, em toda sua plenitude, tem a verdadeira
noção de ser filho de Deus com todas as dádivas
que tem em seu derredor, dons do Pai Onipotente e Misericordioso.
Como observa Bento XVI, nós que permanecemos em casa, que
nos convertamos sempre a esta bondade divina e “estejamos alegres
por causa da nossa fé”. Cumpre valorizar a paternidade
de Deus.
Nela
confiar, superando todas as vicissitudes terrenas através
de uma total entrega a seu amor sem limites. Nunca se refletirá
demais sobre a gratuidade das graças recebidas. Elas são
dons, favores, cuja única fonte é a soberania do
amor divino. Esta dileção não é devida
à criatura. É o resultado de uma iniciativa graciosa
do Onipotente Senhor. É preciso, porém, que o cristão
saiba ser agradecido, tendo em alto apreço as dádivas
do Pai celeste.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
<----
Volta a página principal ----->