A BELEZA DA GRATIDÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Por
ocasião da cura de dez leprosos (Lc 17,11-19) Cristo patenteou
a grandeza da virtude da gratidão. Com efeito, Ele sempre
pronto a desculpar as falhas humanas, no entanto, quando um dos
miraculados, que por sinal era samaritano, veio agradecer tão
grande benefício, a indagação de Jesus foi
uma recriminação aos ingratos: “Não foram
limpos os dez? Onde estão, pois, os outros nove?” (v. 17)
Ele mesmo deu o exemplo, rendendo, enquanto homem, graças
ao Pai: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças
porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim
foi do teu agrado” (Lc 10,21).
A
gratidão é uma linguagem do coração
e é um dos mais belos atributos das almas nobres. É
uma qualidade de reconhecimento pela bondade e delicadeza recebidas.
Ela conduz à reverência e à dedicação
para com o benfeitor. Faz expandir as vibrações
luminosas de um espírito elevado que sabe valorizar os
dons recebidos. É um ornamento precioso do cristão,
dado que expande o esplendor de uma admirável nobreza interior.
Torna-se, além disto, uma chave aurífera que abre
a porta de outros benefícios de Deus e dos homens. Momentos
de gratidão purificam o coração e dispõem
o ser racional a novas atitudes dignas de um discípulo
do Mestre divino.
Perfume
celestial que espiritualiza, uma vez que flui ao ritmo do amor,
o qual valoriza as benesses recebidas, modulando a vida do cristão,
porque inclui inúmeras outras qualidades, como a humildade,
a urbanidade, a ternura, a benevolência. Daí a tendência
a se estar atento às manifestações da dileção
divina e humana, uma valiosa espécie de homeóstase
espiritual sem fronteiras. Abre os olhos do ser pensante que passa
a perceber as maravilhas que estão em seu derredor e aparta
as lamúrias nas quais muitos mergulham sua existência.
Ser grato é fazer uma experiência salutar de vida,
deixando-se envolver nas belezas que povoam o mundo, louvando
ao Senhor de tudo e uma demonstração de sensibilidade
perante os favores granjeados.
Mesmo
na tribulação permitida pelo Ser Supremo a gratidão
leva ao agradecimento pelas lições que o sofrimento
proporciona e, até, a um sentimento de ação
de graças perante algumas atitudes bruscas do próximo,
dado que se tornam ocasião de gestos de perdão,
os quais enriquecem espiritualmente e dignificam quem é
epígono de Cristo. É a sublime energia que a gratidão
confere a quem a cultiva. Viver em tudo esta virtude e transcender
as tendências malévolas que conduzem à soberba
e à dureza do espírito.
No
que tange a Deus é uma expressão basilar da criatura
que, num frêmito de alegria e de adoração,
descobre algo de Deus, da sua majestade e sua glória nas
maravilhas que espalhou pelo universo, lhe rendendo louvor por
tudo que dele se recebe a cada instante. São Paulo diagnosticou
com precisão o grande pecado dos pagãos, ou seja,
o “não terem dado a Deus nem glória nem ação
de graças” (Rm 1,21). Os salmos oferecem meio precioso
para cantar hinos gratulatórios ao Onipotente.
Cada
benefício deste Pai bondoso deve ser sentido como momentos
especiais no decurso de cada instante. É mister imitar
Maria, a Mãe de Jesus, que assim se expressou: “Minha alma
engrandece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu Salvador”
(Lc 1,46). Aí está o valor da Missa dominical, quando,
após uma semana de tantas mercês divinas, em comunidade,
participando da Eucaristia, todos juntos agradecem ao Todo-Poderoso
e isto é uma garantia de benefícios maiores ainda
para mais uma nova jornada semanal.
As
primeiras comunidades cristãs entenderam isto perfeitamente,
concitadas pelos apóstolos. Lemos na Carta aos Efésios:
“Entretei-vos uns com os outros com salmos, hinos e cânticos
espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor com todo o vosso
coração, dando graças continuamente por tudo,
em nome do Senhor Jesus Cristo, ao Pai e Deus” (Ef 5,19).
Este
agradecimento se prolongará por toda a eternidade, quando
os eleitos proclamarão: “És digno, ó Senhor
e nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder; porque
tu criaste todas as coisas e pela tua vontade já possuíam
um ser quando foram criadas” (Ap 4,11). Quem é grato a
Deus o será também com os demais benfeitores que
são canais dos bens celestes. Esta virtude enobrece o cristão
e já Sêneca proclamava que “só os espíritos
bem formados são capazes de cultivar a gratidão”.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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