AS BODAS ABENÇOADAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
primeiro milagre de Jesus, uma das provas de sua divindade, luminoso
anúncio de sua missão futura, princípio impressionante
de toda sua obra doutrinal se realizou na cidade de Caná,
da Galiléia. Desde este primeiro ato de sua vida pública
Jesus se ateve ao seu programa evangelizador que visava incutir
a fé na sua missão salvífica. O Evangelista
enfatizou, dizendo que, após a transformação
da água em vinho. “os discípulos creram nele” (Jo
2, 11).
Calhou
bem este proto-sinal numa festa de casamento, pois Ele iria estabelecer
o matrimônio na sua prístina dignidade marcada pela
indissolubilidade e total união de duas pessoas. Ele elevaria
esta união a Sacramento, santificando admiravelmente o
vínculo matrimonial, de tal forma que São Paulo
proclamaria: “Grande mistério é este; mas digo-o
referindo-me a Cristo e à Igreja” (Ef 5,32). Trata-se de
uma verdade divinamente revelada, superior às considerações
humanas. Assim
como o Redentor se sacrificou pela sua esposa mística,
a Igreja, o marido deve se imolar pela sua mulher e, do mesmo
modo, como a Igreja, através dos tempos vem proclamando
as glórias de seu esposo, Jesus Cristo, a consorte com
sua fidelidade é a honra de seu companheiro de vida.
No
paraíso terrestre, Deus mesmo mostrou, ao unir Adão
e Eva, que se tratava de um contrato, o mais nobre, o mais solene,
o mais venerável, o mais singular dos contratos. Acordo
entre duas pessoas instituído e ratificado pelo próprio
Ser Supremo, autor da Natureza, o qual nesta conjunção
da inteligência e do coração, do pensamento
e do sentimento, da força e da meiguice, da majestade e
da graça, quis colocar uma energia misteriosa, uma participação
de sua virtude criadora, um algo religioso e sagrado, que é
tão imprescindível para a vida da espécie
humana como a água o é para a vida do indivíduo.
Entretanto,
as forças do mal enturvaram esta fonte cristalina e as
paixões, os caprichos, as impudicícias, as infidelidades,
as incompreensões se juntaram para jogar no pântano
da carne a sublimidade desta união. O leito nupcial foi
conspurcado e, entre os povos pagãos, houve a escravidão
das mulheres, as concubinas disputaram os direitos da esposa,
surgiram os inditosos haréns. Em Roma, as mulheres contavam
seus maridos pelos números de cônsules. Na
Grécia, até o renomado filósofo Platão
pregara a supressão da família. No entanto não
era a destruição o que necessitava o mundo, senão
de renovação, de purificação, de transformação.
Aí, então, surgiu a figura ímpar de Cristo
a abençoar as núpcias em Caná. Ele eleva,
restaura e purifica e declarará abertamente: “O que Deus
uniu, que o homem não separe; porque já não
são dois, senão uma só carne” (Mt 19, 6;
Mc 10,8). Mais do que um protesto contra as desordens isto foi
uma promessa de uma graça que se apodera desta instituição
divina para injetá-la na santa hierarquia das causas sobrenaturais,
aumentando a graça santificante recebida no batismo e oferecendo
todas as condições para uma harmônica vida
a dois , desde que se corresponda a esta bênção
celestial.
Tratou-se
da sublimação deste conúbio. A proteção
divina o penetra, o transforma como a água em vinho, e
fica sigilado com um selo que nunca poderá ser rasgado.
Daí a solenidade única dos ritos da liturgia nupcial
do Cristianismo e o Jesus que deu aos Apóstolos tantos
poderes não lhes concedeu o de dissolver o vínculo
matrimonial.
A
Igreja jamais o poderá fazer. O contrato matrimonial pode,
por vezes, ter sido viciado pelo dolo de um dos contraentes e,
neste caso, o casamento foi nulo desde o início e, isto,
porém, é julgado pelo tribunal eclesiástico,
mas desatar os laços de um sacramento, foge inteiramente
ao poder eclesial. Tudo isto deve ser refletido ao se reler e
meditar a cena da presença de Jesus nas Bodas de Caná.
A
água do egoísmo, da maldade, do desprezo, da traição
foi transformada no vinho novo, generoso, incorruptível
de um amor sem limites, de uma imolação sem tréguas.
Este é o ideal do epígono do Salvador!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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