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A MORADA DE DEUS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


     
Uma das revelações mais impressionantes feitas por Cristo foi esta: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Desde o instante venturoso do batismo, através da graça santificante, o cristão se torna a habitação sacrossanta do Deus três vezes santo. Cumpre, entretanto, acolher o mistério da comunhão do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo na existência cotidiana que se abre, já no tempo presente, para a eternidade, onde se consumará esta admirável participação na plenitude do Ser divino.
      Aquele que crê, imerso numa realidade que o transcende inteiramente, deve viver na presença deste Deus, fonte de toda beatitude, numa contínua ação de graças por tão inefável benemerência. Cumpre um acolhimento vital desta maravilhosa união pela adoração constante da Trindade que é o mistério central da fé e da existência cristã.
      Daí resulta a luminosidade que precisa transparecer persistentemente nos atos do epígono do Redentor. Eis aí a conseqüência gloriosa da Encarnação do Verbo Eterno: infunde nas almas um amor que não fica fechado num círculo acabado de luz e glória desde toda a eternidade, senão que se irradia dentro dos corações humanos, na sua história, tornando-os verdadeiramente filhos do Criador de tudo.
      Por isto o batizado vive num processo ininterrupto de transformação, segundo a ordem mesma de Cristo: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). Num mundo globalizado, mas tão fragmentado, se torna ainda mais importante mobilizar todas as energias interiores para realizar tal preceito de Cristo. É preciso viver a experiência admirável de Santo Agostinho: “Tu nos criastes, Senhor, e nosso coração está irrequieto até que repouse em Ti”. No panorama de incertezas, tão complexo como o que se desenrola ante os fiéis neste início de milênio, a fortaleza e a esperança do cristão fluem deste contacto persistente com Deus, hóspede admirável que não pode ficar esquecido lá dentro de cada um.
      É mister se envolver nos fulgores da Verdade absoluta. Esta é então irradiada por toda parte e o apostolado do cristão se torna, realmente, frutuoso, porque sedimentado no próprio Deus. O batizado descobre então sua autêntica identidade: um ser bem-amado do Ente Supremo. Então, sim, se passa a compreender que a vida normal no mundo, no trabalho de cada dia, pode ser e deve ser um encontro ininterrupto com Deus.
      A vida divina passa dirigir todas as coisas, mas isto depende da correspondência humana, dado que ela não opera automaticamente. Ela agirá em razão de uma atitude deliberada, definida, amorosa sob a luminosidade da fé. Eis por que quem assim vive vê seus pensamentos penetrados pelas realidades sobrenaturais.
      Cuida de sua saúde porque é o templo da Trindade Santa. Pratica as virtudes para embelezar esta casa do Senhor. Entrega-se a lazeres e divertimentos sadios sem nunca romper o elo com Deus. Age sempre em função do hóspede interior. É a diretriz de São Paulo: "Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1Cor 10,31). O coração então fica animado de um tal enlevo que governa todas as afeições e emoções.
      O senso do divino fica tão arraigado que o cristão se sente mal perante tudo que agride sua consciência, se apartando daquilo que poderia escravizá-lo ao mundo com suas misérias morais, falsidades e veleidades. Numa conseqüência lógica, a vontade se robustece para se submeter a Deus, Superando as fraquezas diante das insinuações do Maligno. Resultam então frutos espirituais abundantes.
      Deste modo, não apenas a alma se espiritualiza, mas também todo o corpo. É certo que a vida divina não destrói a enfermidade, nem a fraqueza, nem a mortalidade corpórea, mas é sua força contra tudo isto. Assim sendo, a vida do cristão se transforma numa obra de arte divina, pois não há poema mais belo do que viver em plenitude em função do Deus Onipotente.

                                                          * Professor no Seminário de Mariana - MG

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