RESSURREIÇÃO DOS MORTOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Uma
das verdades bíblicas mais consoladoras é a certeza
absoluta da ressurreição dos mortos. Ratificando
o que está no Antigo Testamento, Cristo proclamou: “Que
os mortos ressuscitam, Moisés também o indicou na
passagem da sarça, quando chama o Senhor de ‘o Deus de
Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’. Deus
não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos
vivem para ele” (Lc 20,37-38). Afirmou também: "Eu
sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê
em mim, ainda que esteja morto, viverá" (Jo 11,25).
A ressurreição de Jesus, fato atestado pelos que
conviveram com Ele, foi alicerce da Igreja nascente:"Com
grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição
do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça"
(At 4, 33) O agir escatológico de Deus era o fundamento
da fé pascal. A ressurreição dos mortos implica
o reconhecimento de um Senhor Onipotente absolutamente livre distinto
do mundo que tem capacidade de trazer à vida todos que
passaram pelo vale da morte. É uma expressão magnífica
do poder divino.
O Ser Supremo que salva os mortos é também o único
que pode justificar o pecador, conforme deixou bem claro o Apóstolo
Paulo, falando do “Deus que dá vida aos mortos e chama
à existência as coisas que estão no nada”
(Rm 4,17). Estas palavras fazem eco ao se lê no profeta
Jeremias: "Ah! Senhor Javé, fostes vós que
fizestes o céu e a terra com a força de vosso braço.
Nada vos é impossível" (Jr 32,17). Eis aí
a coerência do dogma da ressurreição.
O Todo-Poderoso atua na história e na corporalidade, de
tal maneira que o mundo por ele criado se torna o lugar da realização
de seu senhorio que vence as forças da decomposição
corporal do homem. Deus salva em plenitude aqueles pelos quais
Cristo se sacrificou, deixando na sua vitória sobre a morte
o penhor do triunfo humano sobre esta pena resultante do pecado
original. A ressurreição, um dia, dos que morreram,
será a coroação da obra salvífica
do Redentor, a irrupção definitiva da ação
salvadora para um mundo que Ele libertou. Há de ser o capítulo
final da virada histórica iniciada com a Encarnação
do Filho de Deus.
Apenas dentro de uma cristologia assim aprofundada é que
se encontra a explicação desta verdade, vislumbrada
longinquamente pela filosofia, mas afirmada solenemente pela teologia,
fundamentada em textos bíblicos inegáveis. Ao se
falar da ressurreição cumpre não fixar a
idéia do corpo físico, mas sim da pessoa que com
ele se identificou e permaneceu em comunicação com
o mundo. Eis o que ensinou São Paulo: “Uma é a claridade
do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas;
e, ainda, uma estrela difere da outra na claridade.
Assim também é a ressurreição dos
mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita
incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso;
semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal,
ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também
há um espiritual (1Cor 15,41-44). O Pai que implantou terminantemente
o seu domínio com o triunfo de Cristo sobre a morte prolonga
nos seres humanos por ele resgatados este seu império que
se torna universal. É certo que uns ressuscitarão,
gozando as delícias da Jerusalém celeste, outros,
porém, para a punição perene de suas obras
más.
Cumpre, então, refletir sempre as palavras de Santo Agostinho:
“Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem
ti”. Os meios para uma ressurreição gloriosa foram
oferecidos por Jesus, a saber, sua doutrina que precisa ser sempre
meditada e praticada, sua presença no sacramento da Eucaristia,
a renovação incruenta de seu sacrifício na
Missa, a comunhão fraterna com o próximo.
A união contínua com o Ressuscitado, o vivo sempre
presente entre os homens, é que robustece a vida divina,
participada através da graça santificante. Com Ele
todas as forças malignas são vencidas nesta luta
dramática entre o bem e o mal. Por meio das amarguras terrenas,
às quais o cristão dá uma aplicação
transcendental, se percebe a força da ressurreição
do Divino Mestre.
Asseverou São Paulo “Anseio pelo conhecimento de Cristo
e do poder da sua Ressurreição, pela participação
em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, com
a esperança de conseguir a ressurreição dentre
os mortos (Fl 3,10). Cumpre, contudo, uma conversão contínua
que conduzirá a um final feliz na trajetória neste
mundo. A fé na ressurreição ilumina de tal
modo a vida do batizado que se torna o sinal brilhante do que
ocorrerá no fim dos tempos.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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