O SERMÃO DA PLANÍCIE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
De
acordo com o Evangelista São Lucas, Jesus “desceu da montanha
com os discípulos e parou num lugar plano” (Lc 6,17). O
texto de São Lucas é mais sucinto do que o registrado
por São Mateus (cap. 5-7), conhecido como Sermão
da Montanha.. Certos hermeneutas julgam que se trata da mesma
pregação. Outros exegetas pensam que Jesus pregava
máximas similares em vários lugares.
Alguns intérpretes da Escritura avaliam que não
houve lugar algum determinado, mas que ambos os textos são
uma sinopse do que Cristo ensinou, doutrina compendiada em termos
diferentes, mas na sua essência ambos transmitindo essencialmente
as sábias diretrizes do Mestre. Num mundo marcado por tantas
misérias e cada ser racional sujeito à sua condição
humana como é belo ouvir Jesus falar de felicidade, de
beatitude! Quem não deseja ser venturoso? Quem não
procura a bem-aventurança? Em todos os tempos homens e
mulheres estão em busca da eutimia. Isto é algo
fundamental à existência do animal racional. Em qualquer
idade, em toda circunstância, todos se lançam com
todas as forças nesta procura da satisfação
mais profunda.
A grande questão é que muitos a buscam lá
onde a felicidade não se encontra. Vão nas sendas
de miragens, de prazeres efêmeros, falsos que deixam após
si um dissabor profundo, quando não parturejam males físicos
e morais. Cristo mostra quem são os verdadeiramente ditosos
e os que, na verdade, entram na classe dos desventurados. As bem-aventuranças
concernem, antes de tudo, aos pobres, aos que têm fome,
aos que choram, aos desprezados e perseguidos “por causa do Filho
do Homem”. Desditosos os ricos, os que têm fartura, os que
estão a rir, os que se comprazem nos elogios. À
primeira vista a fala do Mestre divino pode parecer dura demais
e contrastante. Quem, porém, penetra fundo na sua mensagem
percebe que esta é a grande realidade que precisa ser refletida.
Com efeito, os que não se apegam às riquezas terrenas;
os que os têm fome do pábulo espiritual; os que têm
consciência de que caminhamos num vale de lágrimas
e que a alegria completa será apenas na eternidade; aqueles
que não se compactuam com os crimes mais hediondos que
agridem o que Jesus doutrinou e, por isto, são perseguidos,
estes, sim, um dia, terão os verdadeiros bens e jamais
sofrerão, recebendo a recompensa da fidelidade ao Evangelho.
Os que endeusam a riqueza e não a colocam a serviço
do próximo; os que, egoisticamente tudo querem para si,
numa abundância que os envolve no supérfluo; os que
se entregam aos ilusórios prazeres da vida, rindo dos que
são fiéis ao Decálogo e às verdades
da Fé; os que procuram não o louvor interior da
boa consciência, mas as aclamações que incensam
a própria vaidade, estes já têm nesta terra
sua consolação e não terão a recompensa
celeste; na outra vida terão fome de Deus, mas estarão
longe, bem longe, do Ser Supremo; não alcançaram
o gozo eterno; não obterão o verdadeiro encômio
que é aquele que procede de Deus, Verdade Suprema.
Em síntese, o que Jesus está a pregar e que São
Lucas salientou com perspicácia é a vivência
plena da Boa Nova dentro do Reino de Deus que já começa
neste mundo. Deus quer todos sejam bem-aventurados e não
malditos e foi por isto que Ele enviou o seu próprio Filho
a este planeta. Cristo indicou os caminhos da felicidade. Quem
os trilha, colocando sua confiança no Senhor e tendo nele
sua única esperança, por entre, as dificuldades
de um peregrinar terrestre estE fatalmente será afortunado.
Em Jesus o verdadeiro apoio por entre as incongruências
próprias de uma trajetória até o céu.
Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença
lá dentro do coração mora então a
imperturbabilidade total. É já o degustar na terra
um pouco da felicidade na eternidade na Casa do Pai!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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