ADVENTO E CONVERSÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ressoa
no Advento a diretriz de João Batista: “Convertei-vos,
porque o reino dos céus está próximo” (Mt
3,2). A existência do cristão deve ser uma conversão
contínua, mas o tempo do Advento oferece oportunidade especial
para uma reflexão sobre este processo de espiritualização.
Consiste no reconhecimento da necessidade de uma purificação
interior.
Para o pecador é uma volta para o Criador a fim de bem
receber as graças do Natal. Para o justo é um maior
progresso no caminho da ascese, imergindo ainda mais no amor a
Deus numa relação íntima e filial e dilatando
a dileção ao próximo. Trata-se de se afastar
dos ídolos propostos pelo mundo. Tal conversão só
é possível à luz da fé, pois é
uma resposta generosa ao chamado divino. O maior óbice
à metanóia, como mudança total do próprio
modo de pensar e de agir, como renovação integral
de si mesmo, é a auto-suficiência humana.
Esta é multifacetada e abre um leque de posicionamentos
errôneos que impedem o progresso na rota da santidade. Os
teólogos falam nos pecados capitais. Capital vem do latim
caput, que significa cabeça. Os pecados capitais são
os princípios de inúmeros outros vícios,
ou seja, distorções morais condenadas na Bíblia,
por serem contra a ordem estabelecida pelo Ser Supremo.
Têm sua origem da tríplice concupiscência de
que fala São João, a saber, a concupiscência
da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida
(1 Jo 2, 16). São sete: Soberba (Tg 4,6; 1 Pd 5,5): Avareza
(1 Cor 6,10), Luxúria (idem), Inveja (Gl 5,19), Gula (Idem)
Cólera (Idem), Preguiça (Pv 6,6). A SOBERBA é
a estima exagerada de si mesmo e o não reconhecimento dos
dons divinos, da dependência ontológica do Criador
e o menoscabo do próximo. O contrário é a
humildade que é a verdade sobre si mesmo, sobre Deus e
sobre o semelhante.
É o orgulho causador também da ambição,
da presunção e da vã glória. A AVAREZA
é o amor desordenado dos bens terrenos, apego exagerado
ao dinheiro. Ela gera a dureza para com os pobres, o desassossego,
o desprezo pelos bens eternos, as fraudes, as traições.
O cúpido se esquece de que nada se leva desta vida e não
sabe usufruir dos bens que o Onipotente concede a cada um. A LUXURIA
é a procura desenfreada dos prazeres carnais, indo frontalmente
contra o sexto e nono mandamentos da Lei de Deus.
Partureja o endurecimento do coração, a cegueira
espiritual, o egoísmo, o ciúme, o ódio a
todos os valores que engrandecem o ser racional, o aborto. O epicureu
entrega-se a toda espécies de atitudes animalescas e pode
chegar às mais abomináveis depravações.
A INVEJA é a tristeza causada pela felicidade e pelas qualidades
do próximo. Daí as suspeitas injustas, a maledicência,
as discórdias, as rixas, as calúnias. É uma
traça que corrói o coração, só
destrói a paz, ocasionando todo tipo de perturbação,
nada constrói.
A zelotipia exarcebada impossibilita qualquer relacionamento normal
dentro de uma comunidade. A GULA é o amor desordenado do
comer e do beber. Causa a embriaguez, as mais variadas moléstias
orgânicas, o embrutecimento espiritual. O glutão
não come para viver, mas vive para comer. A gulodice é
o contrário da temperança, da sobriedade que inibem
a voracidade, a glutoneria. A IRA é o movimento desordenado
da alma pelo qual se repele com violência o que desagrada.
É a fonte da vingança, das injúrias, das
agressões, das mortes violentas, do destempero verbal.
Nada pior do que tratar com uma pessoa iracunda, colérica
que vive agastada e furiosa.
A PREGUIÇA é o amor desordenado ao descanso e leva
à omissão dos deveres. A indolência é
chamada a mãe de todos os vícios pois gera a ociosidade
que conduz a todo tipo de maus desejos e péssimas idéias,
a perda do tempo, a inconstância, a infidelidade aos compromissos,
a vida inútil e fútil. A aversão ao esforçoAversão
ao trabalho; conduz à impureza da consciência, à
miséria, à depressão, ao desgosto da vida,
à angústia existencial.
O mandrião é presa fácil do Maligno. Os meios
para vencer os pecados capitais, numa total conversão,
se acham ao alcance de todos. Podem ser assim enumerados: uma
vontade sincera, firme e enérgica, que conduz a grandes
triunfos; a oração constante, que é a força
do cristão; a renovação diária do
bom propósito de emenda, que é um recurso psicológico
de alta valia; a ascese que leva à mortificação,
pois quem faz tudo que pode, acaba fazendo o que não pode;
a freqüência aos sacramentos, canais das graças
divinas; a orientação do diretor espiritual que
é mestre, juiz e médico. Advento é um tempo
propício para uma revisão de vida!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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