AS ALEGRIAS DA PÁSCOA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
júbilo estala nos corações dos cristãos
. Como canta a Liturgia: “Cristo imolado, a morte vencida, foram
abertas as portas do Paraíso”. É Páscoa,
“dia que fez o Senhor; alegremo-nos nele”! O entusiasmo toma conta
dos batizados , pois “o Cordeiro Imaculado redimiu as ovelhas.
Cristo inocente reconciliou o pecador com o Pai”. Maria Madalena
surge e proclama a eloqüência de um sepulcro vazio.
Hinos de vitória então percorrem os ares, dado que
“sabemos que Cristo ressuscitou verdadeiramente dentre os mortos”.
Sobe uma súplica fervorosa: “Ó Rei vencedor, tende
piedade de nós”.
É a humanidade que se curva agradecida e confiante perante
o seu Salvador glorioso. Um duelo admirável se deu: a morte
lutou com a vida e o Autor da vida se levantou triunfante da morte.
Terminou o combate da luz contra as trevas, pugna histórica
de Jesus com os fariseus e batalha mística de Cristo contra
Satã na alma cristã. Já se pode cantar o
cântico novo, o hino da pátria verdadeira, o poema
da libertação: Tudo em Jesus é graça
de vida e de verdade. Nele está a esperança da virtude
e da imortalidade.
As praias de Jerusalém, urbe símbolo da Igreja,
estão cobertas de ouro puro. Nelas se pode entoar o aleluia
festivo. Nas suas ruas se dirá com gozo que o Filho de
Deus é o grande soberano. Resplandecente com luz sem mancha
e todos os confins da terra honrarão a cidade santa de
Deus.
A esposa mística do Cordeiro, luzindo com jóias
deslumbrantes, rebrilha na História. Agora este gáudio
pascal vai se prolongar até o dia de Pentecostes. Festa
continuada na qual os fiéis não se cansarão
de admirar as maravilhas da terra prometida que será dada
em herança aos que forem autênticos epígonos
do Mestre vencedor. Para prados ubertosos e jardins floridos guia
o Pastor as ovelhas dóceis a suas diretrizes, mas Ele irá,
também, em busca das tresmalhadas. Por tudo isto, a alegria
pascal tem matizes maravilhosos.
A Ressurreição de Jesus fala vivamente da ressurreição
dos que nele crêem. Anuncia a nova vida vinda do batismo
no qual, sepultados com Cristo, os batizadas saem luminosamente
revestidos da graça para uma vida nova. Todos, entretanto,
alimentados pelo Pão do Céu, dado que o Cristo que,
depois, se mandará para junto do Pai no dia da Ascensão,
ficou entre os seus na divina Eucaristia.
Tais, então, são os discípulos do Ressuscitado:
brancos como a neve, luminosos como o sol, rubros como o marfim
antigo. Sabedor, porém, cada um que tanta grandeza pode
ser perdida na lama dos vícios e daí a razão
pela qual a luta contra o mal deve continuar firme, sem jamais
esmorecer aquele que confia no seu Senhor. Deste modo os clarões
do dia da Páscoa envolvem não apenas os dias subseqüentes,
como todas as atividades futuras do cristão. O triunfo
de Cristo associa a todos os filhos da Igreja no duplo sentimento
de felicidade e cautela perante o Maligno.
A Páscoa é, outrossim, um valioso lembrete de que
o Novo Adão que se tornou o centro da História,
regenerando da primeira derrota o gênero humano, exige a
participação destemida de todos que anseiam participar
de sua conquista. Esta realidade religiosa precisa marcar fundo
as consciências dos regenerados. Envoltos na luz divina,
os cristãos, contudo, são ainda viajantes nesta
terra de exílio numa caminhada para a beatitude eterna.
O Resssuscitado ilumina as almas com esplendores de seu triunfo
sobre as forças infernais, mas exige o esforço de
cada um no emprego responsável de sua liberdade, dom sublime
sempre respeitado por Deus. Cumpre que cada batizado se torne
também triunfador do mundo e da carne para poder ter parte
nos troféus conquistados pelo Mestre divino. Jesus está
ao lado de cada um que o ama e segue, pedindo, não obstante,
a cooperação humana às graças superabundantes
que jorram de suas chagas resplandecentes.
A antevisão da glória que, um dia, será a
recompensa da prática das virtudes oferece ânimo
para a correspondência aos favores celestiais. Apenas desta
maneira, o cristão expressará continuamente em sua
existência o mistério da Ressurreição.
Eis por que por toda parte se verá sempre o Crucifixo para
uma lembrança viva de que o triunfo final supõe
o passar pelo Calvário, dado que Aquele que nos criou sem
nós, como bem doutrinou Santo Agostinho, não nos
salvará sem nós.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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