O SERVIÇO HUMILDE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Entre
as maravilhosas diretrizes de Cristo, todas elas alicerçadas
nos seus exemplos nunca se fixa demais esta sentença fulgurante:
"Uma vez feito tudo o que se vos ordenou, dizei: "Somos
servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer".
Em qualquer circunstância da vida o ser racional está
sempre a serviço do próximo nas múltiplas
ocupações de cada hora e, se tais ações
são feitas na ótica proposta por Jesus, os merecimentos
são enormes para o tesouro celestial: "Em verdade
eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus
irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes"
(Mt 25,40).
O
Mestre divino se fez um espelho para seus seguidores os quais
se modelam sobre Sua sublime atitude: "E o que quiser tornar-se
entre vós o primeiro, se faça vosso servo. Assim
como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para
servir e dar sua vida em resgate por uma multidão"
(Mt 20,27-28). O Verbo Encarnado se tornou servo numa situação
humana bem definida.
Acentuou
sua lição de uma maneira magnífica num gesto
radical na última Ceia, quando se pôs a lavar os
pés de seus discípulos e acrescentou: "Dei-vos
o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também
vós" (Jo 13,15). Na verdade, a medida do serviço
é o serviço sem medida. São Paulo entendeu
isto perfeitamente e pode afirmar que se fizera tudo para todos
para salvar a todos (1 Cor 9,22). Aconselhou então: "Tudo
o que fazeis, fazei-o na caridade". (1Cor 16,14). Trata-se
de viver não para si, mas para os outros. Cada um se realiza
em plenitude na relação oblativa, nos gestos de
doação. O verdadeiro cristão sabe auscultar
as necessidade alheias e emprega toda eficiência nas tarefas
de cada instante.
É
nas fábricas, nos escritórios, nos campos, nas escolas
que o significado do amor a Deus e ao próximo devem se
manifestar em todo seu esplendor. Não se trata de amar
os outros de uma maneira abstrata, longínqua, mas através
daquele vizinho, daquele companheiro de trabalho imediato que
está ao nosso lado a cada instante, seja qual for sua origem,
aspecto ou opiniões.
Quantos
infernizam a vida alheia por serem impertinentes com os outros,
irritando-os, apoucando-os, Nem se pode esquecer que o próximo
mais próximo é o que habita sob o mesmo teto. Ser
cristão num serviço humilde é perceber que
outros existem, é sair de si para ser atencioso com eles,
é ser calmo nas relações de cada hora. Cumpre
servir os outros até o esquecimento de si próprio.
Este
serviço se amplia no anúncio do Evangelho que salva,
anima e vivifica os corações doridos. É mister
oferecer ao mundo a imagem de uma Igreja ministerial, "na
qual o maior tesouro é a pessoa humana, como lembrou o
Pe. Paulo Dionê Quintão ao anunciar o projeto "Bom
Pastor" na Paróquia de Santa Rita de Cássia
em Viçosa (MG). Uma vida à disposição
do próximo é um ideal sublime que deve direcionar
a existência de todo batizado.
O
céu fúlgido da Igreja está constelado de
figuras esplêndidas que alcançaram o cume da perfeição,
sublimando o serviço cotidiano e multiplicando a imolação
sobretudo para os mais necessitados, marginalizados da sociedade,
em situação de risco. Cumpre sempre cultivar a mística
do ofício caritativo, pedindo ao Divino Espírito
Santo o carisma da dedicação aos outros. É
ter consciência de que é preciso edificar uma Igreja
voltada para a comunhão com Deus e com os irmãos.
É o que se denomina também "a liturgia do próximo",
ou seja a visualização da presença divina
no outro.
O
serviço humilde lembrado por Cristo é uma imitação
do próprio Deus que tudo criou em benefício de suas
criaturas. Mas o Ser Supremo multiplica seus dons para quem se
doa aos outros. Se o serviço diário é realizado
com toda competência, eficiência e amor se torna então
fator de salvação para si e para os outros. Para
quem não vê o próximo muito perto de si, o
Criador ficará sempre mais longe.
Cumpre
se impregnar da palavra de Jesus: "Somos servos inúteis",
porque não fazemos mais do que a obrigação,
estando a serviço dos outros. Na verdade, em cada ação
é o Senhor que age, pois diz o Apóstolo: "Somos
os cooperadores de Deus" (1 Cor 3,9). Isto não resulta
de uma deficiência do poder divino, mas é o Ser Supremo
que quer se servir das causas intermediárias para comunicar
uns aos outros os seus benefícios.
Cada
um deve ser servidor por bondade e por amor. É belo estar
consciente de que se é o canal da misericórdia do
Criador. Quem exerce uma chefia qualquer deve se considerar um
servidor especial dos subordinados. Não se trata de uma
honra, mas de um ônus para o bem de todos.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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