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O DESAPEGO CRISTÃO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

     Como admirável Mestre, Cristo deixou normas maravilhosas para seus seguidores. Uma delas foi esta séria advertência: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12 15). Ainda uma vez Jesus prega o meio termo nas atitudes humanas.      O desapego, com efeito, é uma postura interior que liberta o ser racional de todo liame desvirtuado e egoísta com relação às riquezas passageiras desta vida. Não se trata em absoluto de uma desumana indiferença, ou atitude estóica, ou de um enclausuramento egocêntrico em relação ao mundo em que se vive.
      O significado mais profundo do ensinamento do Rabi da Galiléia é o de liberdade interior no que tange ao acúmulo desnecessário de bens e a não aplicação sensata daquilo que se tem, fruto do trabalho, da operosidade de cada um. Cumpre levar a sério os dons concedidos por Deus. Está na carta de São Paulo a Timóteo: "Pois tudo o que Deus criou é bom e nada há de reprovável, quando se usa com ação de graças. Porque se torna santificado pela palavra de Deus e pela oração” (1Tm 4,4-5). Não se pode ser escravo do dinheiro, mas mister se faz bem utilizá-lo, sabedor cada um de que aquilo que se ganha e é necessário para a própria subsistência e dos familiares é difícil de entrar, mas muito fácil de sair, se não houver critério seguro no emprego do que se recebe. O que Jesus condena é a ganância, o endeusamento das riquezas.
      O maligno deturpa tudo e desvia a finalização do homem para Deus, donde ter Cristo acrescentado que não se deve ajuntar tesouro para si mesmo, mas ser rico diante de Deus (Lc 12,21). O batizado participa, já nesta terra, da eternidade para a qual caminha, mas a sua vida se desenvolve no tempo.
      Como bem esclareceu o teólogo Zomparelli, “esta tensão dialético-existencial entre o eterno e o temporário é o tempo cristão: tempo de salvação já presente, mas em vias de realização”. É o que se lê na “Carta a Diogneto”, célebre documento escrito em Alexandria no ano 200, mostrando que os cristãos “habitam na própria pátria, mas como estrangeiros; participam de tudo como cidadãos, e tudo suportam como forasteiros; qualquer terra estrangeira é sua pátria, e toda pátria é, para eles, terra estrangeira”. Isto está explicado magnificamente na Carta aos Hebreus: "Aliás, não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura". (Hb 13,14).
      Cumpre, portanto, crer no valor de tudo que Deus concede a cada um, mas relativizá-lo, ou seja, não se apegar aos bens passageiros que devem ser instrumentos e não fim. Daí é que se lavrou o brocardo: “O supérfluo dos ricos pertence aos pobres”. Uma marcha delirante para a acumulação de fortunas é que gera a corrupção que tem, aliás, deslustrado a existência de tantos políticos e outros gananciosos, iludidos com a posse do que é desnecessário.
      Há, entretanto, uma horrípila pobreza na existência dos opulentos os quais acabam conhecendo um vazio interior que deprime e, até, lança na depressão. Quem não espiritualiza seus atos acaba servo inditoso do que é transitório.
      A riqueza em si não é um pecado, mas se metamorfoseia em culpa quando é divinizada. Ninguém pode ser feliz se não estiver inteiramente liberto de laços terrenos. A satisfação da alma só se encontra em Deus. Eis por que Jesus completou depois sua prédica, aconselhando: “"Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração". (Mt 6, 19 -21).
      É necessário depositar confiança unicamente no Ser Supremo. Entretanto,“ajuda-te que o céu te ajudará”, pois, é preciso combater a indolência, mas trabalhar para ganhar o pão de cada dia. Assim se dará o que Jesus prometeu: “"Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo". (Lc 12,31).

                                                         * Professor no Seminário de Mariana - MG

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