TEOLOGIA DAS BEM-AVENTURANÇAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Tudo é significativo
na vida de Jesus. Ele sobe uma colina que os evangelistas chamam
de montanha (Mt 5,1-12). Ele o novo Moisés, aquele legislador
famoso de Israel, que recebeu de Javé a Lei no monte Sinai,
vai proferir o mais famoso sermão da História, detalhando
como deve ser a conduta dos que observam integralmente o Decálogo.
Cristo então se assenta numa atitude magisterial e passa
a doutrinar a multidão que o seguia. Proclama a carta magna
de seu Reino.
O exórdio é conhecido como as bem-aventuranças.
A Boa Nova que trouxera do céu à terra é
uma vereda de felicidade. Há no mais profundo do ser humano
o anseio recrescente da mais completa ventura, que é uma
palavra que faz palpitar o coração de todos os homens.
O Filho de Deus podia falar da beatitude como ninguém,
dada sua comunhão estreita com o Pai, fonte de todo júbilo.
Este gáudio ele queria partilhar com seus discípulos:
“Que minha alegria esteja em vós e que vós sejais
repletos de alegria” (Jo 15,11). Ao proclamar as bem-aventuranças
o Redentor faria, além disto, o retrato falado de seus
epígonos.
O sábio Rabi da Galiléia
podia discorrer ex cathedra sobre o tema, uma vez que se manifestaria
sempre na pobreza do coração; era manso e humilde;
viria ininterruptamente ao encontro dos que têm fome e sede
de justiça; mostrar-se-ia continuamente misericordioso
com os pecadores; ostentaria por toda parte a santidade mais eminente;
irradiaria a paz e testemunharia, corajosamente, a verdade, sofrendo
perseguição pela justiça do Reino até
o dom total de sua vida. Convida então a seus seguidores
a partilharem as Bem-aventuranças com Ele, companheiro
de cada um no caminho de uma felicidade difícil de ser
alcançada, mas ilimitada.
É de se notar que
a primeira das oito bem-aventuranças é o despojamento
do coração, marca fundamental das primeiras comunidades
cristãs que compreenderam fundamente a mensagem do Mestre.
Ele não pregava uma resignação patológica,
mas uma visão clara da precariedade dos bens terrenos que
devem ser um meio e não um fim em si mesmos.
Os demais valores evangélicos,
que enumera em seguida, são exatamente uma abertura para
um mundo diferente, ou seja, a Jerusalém do alto, onde
Deus mesmo será aquele que é a eterna beatitude
dos que Lhe foram fiéis na peregrinação terrestre,
aqueles que tomaram inteiramente o Evangelho como regra de vida,
todos os santos. Não se trata de um futuro incerto, nem
de uma alienação nesta terra, uma vez que o reino
de Deus já está entre os seus discípulos
(Lc 17,21). Pode-se ser feliz aqui e agora, desde que se viva
a óctupla via por Ele proposta. Não se trata da
apologia de uma tranqüilidade passiva e ingênua.
Só será feliz
quem se engaja concretamente no sentido mais profundo destas bem-aventuranças,
cuja vivência exigem, de fato, muita coragem, determinação,
pugna constante contra a ambição, o descorajamento,
contra a fobia das desgraças da fome e da sede, contra
a covardia em não ser misericordioso, contra a poluição
das impurezas interiores e exteriores, contra a falta de alento
para ser agente da paz, contra o temor da perseguição
por causa da justiça, contra a insinceridade no testemunho
batismal.
A pobreza anunciada por Jesus
é a recusa ao poder pelo poder, ao orgulho, à vaidade,
ao apego à riqueza pela riqueza. As lágrimas manifestam
uma compaixão cordial que leva cada um a entrar em comunhão
com os que sofrem, como aconselhava São Paulo: “Chorar
com os que choram” (Rm 12,15). A mansidão é a acolhida
do outro sem preconceito, nem inveja. Fome e sede de justiça
significam não se compactuar com as discriminações,
as estruturas sociais injustas. Ser misericordioso é não
voltar as costas aos necessitados e marginalizados da sociedade.
A pureza de coração
é sinônimo de transparência, excluindo-se,
sem tergiversação, tudo que polui a mente e a consciência
num mundo hedonista, materialista, imoral. Irradiar a paz supõe
uma vontade firme de realizar a reconciliação à
imagem de Cristo que afirmou: “É a paz que eu vos dou”
(Jo 14,27). Quem procura a justiça do Reino será
sempre perseguido, mas não se dobra diante da malvadez
humana, as incompreensões e zombarias. Trata-se de remar
contra a corrente do mal, tendo como referência a eterna
felicidade junto do Ser Supremo, segundo o anúncio feito
por Cristo: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande
nos céus a vossa recompensa”. Lembremo-nos, porém,
sempre, que as bem-aventuranças são proporcionais
à largura e à profundeza da fé, da esperança
e do amor que o cristão possua.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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