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NOSSO ÚNICO REFÚGIO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


    Dentre as magníficas intervenções de São Pedro na convivência com Jesus, registradas pelos evangelistas, é admirável a que anotou São João (6,68). Ante a defecção de muitos que não creram no discurso que o Redentor fez sobre o pão celeste, Cristo argüiu os apóstolos se também eles o iriam abandonar. Pedro tomou a palavra e respondeu, num instante de pulcra inspiração: “Para quem iremos nós, Senhor. Tu tens as palavras de vida eterna e cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus”. Pela fé os verdadeiros discípulos acreditavam que ali estava o Filho de Deus, exclusiva tábua de salvação (Jo 3,16). Ele, verdadeiramente, foi feito para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção (1 Cor 1,30). Quem dele, lamentavelmente, se separa renuncia à misericórdia do Ser Supremo, na qual se deve ter o único refúgio.
    De fato, o Pai enviou seu Filho ao mundo para mostrar seu imenso amor e sua inesgotável bondade para com os seres racionais, livrando-os da morte e os chamando para uma gloriosa ressurreição, levando-os à posse do gozo celeste (Rm 8). Esta vida venturosa por toda a eternidade que o Salvador nos proporciona foi merecida pelo sangue redentor oferecido no Gólgota (1 Pd 1,18). Ninguém se salvará pelos próprios méritos, mas pelo sacrifício cruento de Jesus que carregou nossos pecados no seu corpo sobre a cruz e é pelas suas chagas que fomos curados (1 Pd 2, 24-25).    
    Ele é, realmente, nossa total purificação (Jo 15,3) e fora dele não há libertação possível, pois somente aquele que invocar o nome do Senhor Jesus se salvará (Atos 2, 21). Portanto a justiça que nós obtemos pela fé depende das promessas gratuitas pelas quais Deus nos declara e nos prova que tem para conosco uma dileção sem limites, uma vez que ele ofereceu o seu Filho unigênito para que aquele que nele crê possa, um dia, ter a visão beatífica(Jo 3,16). Cumpre então ao batizado viver em Cristo.
    Isto significa trazê-lo para nossa existência cotidiana através da compreensão cada vez mais profunda dos Evangelhos, da participação na Eucaristia e pela proclamação de nossa fé em tudo que se pensa e se faz. Se Jesus é a imagem do Deus invisível, reflexo da luz inefável de Deus temos que caminhar sempre nesta luminosidade purificadora. Ele a imagem do homem novo, libertado do pecado, se fez nosso modelo e nosso Mestre. Ao desejo desenfreado de tudo querer possuir numa sociedade de consumo, Ele nos propõe o desapego dos bens materiais que devem ser meios e não fins (Mt 5,3). Na verdade, cada vez que o cristão se coloca sob seu olhar meditando Sua Palavra, Ele o transforma e passa a viver no seu epígono. Quando Ele é invocado, clarifica a existência de seus seguidores.
    Por isto nunca se valoriza demais a celebração eucarística, mormente a Missa dominical, quando a Comunhão preparada nos dias da semana representa a união mais perfeita e estreita com Ele. Eis por que viver o ano litúrgico é entrar na própria vida de Jesus, cujas etapas dentro da História vão sendo revividas através do passar dos meses. Deste modo, o cristão deixa de ser um indiferente.
    Sob a inspiração do Divino Espírito Santo enviado aos seus por Jesus passa a proclamar, então, por toda parte que Jesus é o Filho de Deus (Rm 10,9). É preciso, realmente, ajudar aos que estão longe dele a vencer o abismo da dúvida, do pecado, da escravidão dos erros. É a grande advertência do Apóstolo Paulo que todo batizado deveria repetir sempre: “Ai de mim se eu não evangelizar” (1 Cor 9,16). Não se pode, egoisticamente, deparar a ventura junto do Coração de Jesus, mas é mister levar os outros a esta fonte de eternas delícias e de total garantia de salvação eterna.
    O apostolado não é senão o exercício da caridade cristã que deseja participem todos das benemerências salvíficas de Cristo.
    Tal posicionamento se alimenta da abundância da vida interior, passada na união profunda com o divino Pastor. Trata-se de se estabelecer um dique a esta solicitude diabólica pelas comodidades, ao culto do prazer que ameaça submergir tudo e se propõe a destruir as almas e acorromper as famílias. Ação espiritual e religiosa, ação social no mais elevado sentido da palavra, visando promover os bens supremos da sociedade, inclusive os da política, demonstrando por palavras e obras que longe de Cristo não há felicidade, porque somente Ele tem, realmente, palavras de vida eterna.


* Professor no Seminário de Mariana - MG

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