MEDITAR A PALAVRA DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O domingo da Bíblia vem recordar a necessidade
da leitura, da meditação e da prática da
Palavra de Deus. Cumpre empregar uma metodologia eficiente para
que isto se torne uma realidade. O Concílio Vaticano II
insistiu sobre a necessidade do contato contínuo com tudo
que o Ser Supremo revelou, procurando entender o texto bíblico,
trazendo sua mensagem para o cotidiano da existência. A
mais antiga tradição da Igreja mostra como se deve
fazer a leitura da Escritura. Esta inclui um profundo ato de fé,
uma total atenção ao Espírito Santo que conduz
ao conhecimento verdadeiro do Criador. Atitude amorosa que leva
a uma empatia total com Aquele que é a luz a iluminar as
trevas da mente e do coração humanos. Procura-se
o Senhor na leitura para O encontrar na meditação
que conduz à contemplação a qual tende a
transformar o modo de ser do fiel. É preciso para isto
a invocação, o apelo ao Espírito de Deus
ao qual cumpre total docilidade.
Disto resulta uma sinergia entre a Terceira
Pessoa da Santíssima Trindade e o cristão que é
conduzido à calma interior, à imperturbabilidade,
condições básicas para que se dê a
ação divina. Cumpre sempre uma atitude de dependência
do Espírito Santo, de cooperação com Ele
o que supõe um desapego de si mesmo e das preocupações
terrenas, das inquietudes que são próprias da insegurança
de um ser finito, limitado, contingente.
Quem está imerso no barulho de suas
ansiedades, de suas paixões, de seus sentimentos dificilmente
pode se abrir às realidades celestes. É preciso
fé na atuação da graça, ou seja, certeza
de que a iluminação do Alto resolverá os
problemas, pois advirão da Palavra a força, a luz,
a solução. Deixa-se, deste modo, Deus tomar a iniciativa
através de suas admiráveis moções.
Quando se medita na fé o texto revelado, ele se torna uma
carta de amor que o Pai escreve para o seu filho. A leitura espiritual
da Bíblia dá ocasião a Deus de agir, de iluminar,
de corrigir, de santificar. Isto pode e deve ser feito por todos
os batizados. Inúmeros são aqueles que, tocados
pela luminosidade divina, são capazes de entender profundamente
o recado de Deus tão profundamente como os mais sábios
teólogos.
O Espírito Santo, porém, requer
o esforço de cada um, dado que a pedagogia divina exige
a cooperação individual através da atenção
e compreensão do que está escrito. Mister se faz
ainda reter na memória aquilo que mais penetrou na consciência,
porque os pensamentos tendem a se transformar em atos. Não
se trata de uma memorização mecânica, mas
de se reter no interior de si mesmo a Palavra divina. Maria deixou
o exemplo, pois ela conservava e ponderava tudo em seu coração
(Lc 2,19). Quem assim procede infalivelmente é levado a
praticar o que refletiu. É a experiência vital, concreta,
da mensagem recebida como um presente da solicitude de Deus. Torna-se
então fácil caminhar com Cristo quer nas veredas
ásperas, quer nos prados verdejantes. A iniciativa de tudo
deve ser do Espírito Santo.
A Palavra é, com efeito, Deus mesmo
que bate à porta do coração para o fortificar,
animar, consolar. Sente-se deste modo o olhar de Deus que se manifesta
mais brilhante que o raio do sol. Esta contemplação
não é nem êxtase, nem algo extraordinário
que se manifesta sensivelmente, mas é uma atitude amorosa
que beatifica. Davi aconselhava: “Gostai e vede como o Senhor
é bom!” (Sl 33,9) Deste modo, a leitura da Bíblia
é não somente uma escola de prece, mas também
uma escola de vida. Nela Deus nos chama, nos fala, suscitando
uma resposta dócil que transforma, modifica, vivifica,
envolve em luminosidade. Então, o cultor da Palavra se
faz capaz de irradiar por toda parte a Verdade, pois “a palavra
de Deus é viva, eficaz, mais penetrante que uma espada
de dois gumes”(HB IV, 12).
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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