TEOLOGIA DO NATAL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Um
panorama de luz rodeia os cristãos ao se aproximarem do
Presépio para comemorarem mais um Natal de Jesus. Horizonte
esplêndido se abre ante todos, trepidam os corações
de júbilo bem dentro da perspectiva do profeta Isaías.
Este, muitos séculos antes do acontecimento de Belém,
viu a terra fecundar-se de um celeste rócio e a Palavra
onipotente descer entre o silêncio da noite e os montes
saltarem de gozo ante o espetáculo de uma virgem que dá
à luz o Verbo Eterno de Deus.
É que o Salvador que veio dos céus será a
fortaleza de seus seguidores. Que se abram, então, as portas
para que entre o povo santificado, o povo que guarda a verdade.
Longe se apartem os temores vãos, pois Ele dará
a paz aos que nele esperam. Ressoam, de fato, os cânticos
dos anjos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos
homens por Ele amados!” Roque Schneider num momento de pulcra
inspiração afirmou: “Tudo passa, só não
passa o Natal, aquela atmosfera de ternura, de harmonia, de simplicidade,
de amor e de muita esperança, acima de tudo”.
O
Redentor, realmente, vem para honrar nossa terra, para consolar
nossas almas, para iluminar nossa vida, para secar todas as lágrimas,
satisfazer todos os anelos dos corações. Enquanto
os pagãos comemoravam o Sol invicto com luminárias
estrepitosas, saudando o nascimento do astro do dia, que, ao cruzar
o solstício se revelava uma vez mais vencedor das sombras
e das neves e dos invernos, os cristãos, inspirados pelo
céu, substituíram a solenidade supersticiosa pela
grande saudação à “Luz que ilumina todo homem
que vem a este mundo”, Jesus Cristo, Senhor da História.
Este, sim, o sol das almas e centro de toda a astronomia espiritual.
São Gregório Naziazeno explicou que o símbolo
da natureza, ou seja, o fato do sol entrar novamente numa carreira
triunfal, é o sinal de um fato muito mais importante e
significativo.
Foi, por isto, que na calada da noite nasceu o Salvador espancando
as trevas e iluminando a humanidade com o Evangelho que Ele pregaria.
Santo Agostinho explicou que foi escolhido o dia e a hora em que
Jesus devia nascer, como escolhida foi sua Mãe, toda pura
e santa, e tudo isto tem um sentido extraordinário. Eis
por que o cristianismo transformou uma orgia fantasiosa dos povos
romanos numa solenidade santa e vinculada ao maior acontecimento
histórico de todos os tempos e ao mais amável dos
mistérios da Religião. A alegria do Natal está
inteiramente repleta do perfume da graça divina e transfunde
um encanto inefável.
O sorriso do Menino Deus enleva as almas nobres, inundando-as
de serenidade e imperturbabilidade. É como se a luz que
alumiou a vigília dos pastores circulasse por nossas artérias.
Tudo que os Profetas anunciaram realizou-se para prestígio
do gênero humano! Nenhum regozijo é tão suave,
tão claro como o que brota do Presépio. A glória
vitoriosa do sol divino se manifesta com uma luminosidade deslumbrante
que embevece a todos os que crêem que Cristo é o
Filho de Deus Encarnado.
Por entre tanto contentamento é preciso se ater à
profundidade da teologia do Natal, a qual o Papa Leão Magno
expressou de uma maneira admirável:”Se o homem novo, revestido
de uma “carne semelhante à do pecado”, não tivesse
assumido nossa velhice; se ele, consubstancial ao Pai, não
se tivesse dignado a ser também consubstancial à
Mãe e unir a si nossa natureza, com exceção
do pecado, a humanidade permaneceria cativa sob o jugo do demônio;
e não poderíamos gozar do triunfo do vencedor, porque
não teria sido obtido em nossa natureza”.
Foi,
não há dúvida, desta união admirável
que irradiou para nós o sacramento da regeneração,
para que renascêssemos espiritualmente pelo mesmo Espírito
por quem Cristo foi concebido e nasceu. Por tudo isto cumpre reter
a advertência de Leão Magno: “Reconhece, ó
cristão, a tua dignidade”. É que a descida do Criador
até as criaturas é, de fato, uma elevação
destas para o Ser Supremo e Ele se fez filho do homem para que
nós pudéssemos ser filhos de Deus!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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