A TEOLOGIA DO SERVIÇO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dentre as magistrais declarações
de Jesus, cumpre sempre ressaltar esta diretriz decisiva na vida
do cristão a partir de seu exemplo magnífico: “O
próprio Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir” (Mc 10,45). Ao se percorrer a Bíblia se
percebe que a noção de serviço é dominante
e contrasta com a idéia do homem longe de Deus e autônomo,
dominador e não se submetendo ao Ser Supremo, nem prestando
serviços desinteressados aos outros. O ser racional foi
criado para adorar e servir a Deus de todo coração
neste mundo para, um dia, dele gozar por toda a eternidade.
A primeira menção de serviço
na Bíblia se encontra no Gênesis: “Não havia
homem que cultivasse o solo” (Gên 2, 5).Tratava-se de um
trabalho a ser feito livremente na total submissão aos
planos divinos para a subsistência do gênero humano,
que sempre devia ser agradecido ao Criador. São Paulo decodificou
isto admiravelmente ao proclamar: “Quer comais, quer bebais, quer
façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória
de Deus” (1 Cor 10,31). É o homem servindo-se a si mesmo
e aos outros com seu trabalho, mas tendo como referencial o Onipotente
Senhor de tudo.
O pecado original obnubilou a inteligência
humana e transtornou tudo, de tal modo que o egocentrismo passou
a imperar, inclusive fazendo com que alguns fossem sempre servidos
e nunca estivessem dispostos a ajudar o próximo. O senso
de superioridade sobre os outros levou inclusive a Cristo a doutrinar
os Apóstolos: “Sabeis que os que são reconhecidos
como chefes das nações as tratam como senhores,
e os seus grandes exercem poder sobre elas. Mas entre vós
não é assim, pelo contrário, o que entre
vós quiser ser grande, o primeiro, seja submisso a todos”
(Mc 10,42-44). Podia se apresentar como modelo desta nobre atitude.
Se isto não acontece o ser racional
acaba escravo de si mesmo, do pecado e dos maiores absurdos com
sua ânsia de preponderância sobre os outros. Ou se
serve a Deus e ao semelhante ou então a Satanás,
príncipe deste mundo. Na história da salvação
o grande tema é, de fato, a teologia do serviço.
Os Patriarcas, os Profetas do Antigo Testamento estavam a serviço
do Povo de Deus. Em Cristo, o Taumaturgo, se realizou o vaticínio
de Isaías: “Eis o meu servo a quem escolhi, o meu predileto,
no qual se compraz a minha alma” (Mt 12,18).
Sempre submisso ao Pai, enquanto homem, Jesus
cumpriu perfeitamente sua tarefa de servidor fiel. Glorificou
a Deus na terra como mostrou São Paulo aos Filipenses.
“Ele subsistindo na natureza de Deus, não julgou o ser
igual a Deus um bem a que não devesse nunca renunciar,
mas despojou-se a si mesmo, tomando a natureza de servo, tornando-se
semelhante aos homens, e, reconhecido como homem por todo seu
exterior, humilhou-se a si, fazendo-se obediente até à
morte, e à morte de cruz” (Fp 2, 4-8).
Como nos deve comover a reflexão sobre
este modelo de servidor único que se fez escravo para libertar
os homens da servidão do Diabo. O Redentor continuou sempre
servindo, pois está na Carta aos Hebreus: “Ele mesmo submetido
à provação, padeceu, está em condições
de prestar auxílio aos que são submetidos à
provação” (Hb 2,18). A exemplo de Jesus, o batizado
deve ser um servidor, como “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-16).
Todo cristão autêntico, ou seja,
aquele que foi regenerado pelo Espírito é servo
de Cristo (Jo 12,26) e servidor de todos (Mt 20,26). Aristides,
se dirigiu ao imperador Adriano no século II, mostrando
que “os cristãos se amavam uns aos outros, ajudavam-se
mutuamente, estavam a serviço dos órfãos
e atentos às necessidades de todos, considerando-se irmãos,
não no sentido usual, mas irmãos pelo Espírito
de Deus”. Eis por que São Pedro aconselha: “Cada um de
vós ponha ao serviço dos outros o seu dom, conforme
o recebeu [...] quem exerce um ministério, como animado
por força que lhe é comunicada por Deus, para que
em todos seja Deus glorificado, por Jesus Cristo, a quem é
devida a glória o e o poder por todos os séculos
dos séculos” (1 Pd 4,10-11).
Deus quer que o corpo de Cristo, que é
a Igreja, funcione harmoniosamente na pluralidade (Rm 12,4-5),
na diversidade (1 Cor 12,4-6), na unidade (1 Cor 12,12-13).. Cada
um colocando a serviço do próximo os carismas que
recebeu de Deus (1 Cor 12,28). Para isto cumpre sair do egoísmo,
mesmo porque que “quem não vive para servir, não
serve para viver”.
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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