LIÇÕES LEGADAS POR PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As reações de São Pedro,
registradas no Evangelho legaram preciosas lições
para que, com ele, aprendêssemos a lidar com o Ser Supremo.
Assim é que, quando Jesus indagou aos apóstolos:
“E vós quem dizeis que eu sou”?.(Mc 8,29), a resposta do
Apóstolo foi admirável: “Tu és o Messias”.
Logo depois, porém, quando Cristo anunciou sua Paixão,
movido de compaixão, Pedro chamou Jesus à parte
e “começou a repreendê-lo”. O divino Redentor foi
duro com ele: “Retira-te de diante de mim, Satanás! Tu
me serves de pedra de tropeço, porque não tens o
senso das coisas de Deus, mas das coisas dos homens!” (Mc 8,8
33). Jesus então disse aos seus discípulos: “Se
alguém quer vir após mim, renuncie-se a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34).
Pedro assimilaria bem a reprimenda e apreenderia
melhor ainda a mensagem, pois haveria de imitar o Salvador e vinte
anos mais tarde, na colina do Vaticano, seria executado no reinado
de Nero e, como reza a tradição, exigindo ser crucificado
de cabeça para baixo, pois não se julgava digno
de estar na mesma posição de Jesus lá no
Calvário. Quando a hemorroíssa tocou em Jesus e
se curou, este queria que publicamente aquele milagre fosse conhecido
e perguntou: “Quem me tocou?” Pedro foi irônico, mordaz
ao afirmar: “Mestre, a multidão te comprime e te esmaga.”
Jesus insistiu com a pergunta e a mulher lhe caiu aos pés
para receber um elogio que trazia em si outra grande diretriz
do Redentor para todos nós sobre a importância da
fé: “Minha filha, tua fé te curou; vai em paz”(Lc
8, 45-48).
No monte Tabor, com Tiago e João, Pedro
presencia a transfiguração ( Mt 17, 1-, 8) Bem a
seu feitio, empolgado, embevecido diante do Mestre que deixara
fulgir raios de sua divindade, ele não mais queria dali
sair e só mais tarde compreenderia que para se chegar à
contemplação perene da divindade cumpre antes passar
pelos sofrimentos do exílio terreno. Na última ceia
ele ousa impedir a Jesus de lhe lavar os pés, mas o Mestre
pacientemente lhe explica a razão daquele gesto. Logo,
comete outro engano, pois quer então que Jesus lhe lave
o corpo inteiro e recebe outra explicação do Mestre,
pois bastaria lavar-lhe os pés, dado que estaria já
bem dada a lição do serviço aos outros (Jo
13,6-9). Deus é sempre assim.
Ele se serve de nossos equívocos para
fixar mensagens luminosas. No Getsêmani sofre Pedro, com
Tiago e João, outra reprimenda de Jesus que os surpreende
dormindo, mas se dirige a Pedro: “Como assim? Não fostes
capaz de vigiar comigo uma hora!”(Mt 26,40). Feliz culpa, pois
Jesus nos legou então mais uma preciosíssima diretriz:
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação,
pois o espírito está pronto, mas a carne é
fraca”. Impetuoso, agindo sempre sem pensar, Pedro ali no Horto
das Oliveiras, corta a orelha de Malco que, com outros, viera
prender Jesus (Jo 18,10). Cristo era contra toda e qualquer violência
e se serve de mais este erro de Pedro para ensinar: “Guarda a
tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam a espada pela
espada perecerão” (Mt 26,52).
Pedro ia assimilando as lições.
Com efeito, na última ceia pediu a João, que estava
ao lado de Jesus, indagasse a ele quem seria o traidor. Foi então
prudente, pois, deu apenas um sinal com os olhos a João
e, embora sabendo quem seria o traidor, não mais agiu precipitadamente
impedindo os planos salvíficos de Deus Foi só aos
poucos que Pedro foi amadurecendo espiritualmente o que significa
ser árduo o caminho da perfeição. Assim é
que num momento de soberba interior ele afirmou a Jesus: “Ainda
que todos se escandalizem por tua causa, eu jamais me escandalizarei”
(Mt 26, 33).
Grande soberba do apóstolo, que mesmo
advertido por Jesus deixaria nas páginas da História
uma das mais negras ingratidões que foi sua negação
no Pretório. Fora prevenido: “Em verdade te digo que esta
noite, antes que o galo cante, me negarás três vezes”,
anunciou Cristo, mas Pedro persistiu na sua embófia: “Mesmo
que tivesse de morrer contigo, não te negarei”(Mt 26 33-35).
Bem sabemos o que aconteceu. Ele juraria que não conhecia
Jesus! Cena grotesca aquela que se deu naquele pátio de
tão tristes recordações para Pedro. O galo
cantou.
Sua consciência doeu, doeu muito. Diz
o Evangelista que “saindo daí, ele chorou amargamente”
(Mt 69-75). Que todos aqueles que negam a Jesus pelo pecado, pela
blasfêmia, saibam imitar ao grande Apóstolo. Prantear,
mas prantear amargamente os erros, as deserções,
pois quem chora como Pedro encontra sempre o perdão de
Jesus. Errar é humano, perseverar no erro é diabólico!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
<----
Volta a página principal ----->