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JESUS E O JOVEM RICO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


    O diálogo entre Jesus e o jovem rico merece profundas reflexões (Mc 10,17-30). Desejava ele alcançar a vida eterna e o Mestre logo aponta o caminho: a observância total dos mandamentos divinos compendiados no decálogo. Preceitos que são o roteiro da felicidade neste e no outro mundo. No contexto laxista deste início de milênio, no qual sobretudo nos meios de comunicação social as ordens do Ser Supremo são tão menoscabadas, nunca é demais observar que a postura do cristão deve ser sempre de repulsa a tudo que confronta a vontade do Criador.     Além disto, Cristo exige um completo desapego dos bens terrenos, os quais devem ser meios para o serviço a Deus e ao próximo e nunca um fim em si mesmos. Um tema recorrente na cultura greco-romana era o desejo de ultrapassar os limites naturais do tempo. Esta ambição está na origem de obras arquitetônicas admiráveis, das peças musicais mais tocantes e das mais belas composições poéticas que o mundo antigo legou à humanidade.
    Este desejo recrescente de imortalidade é, até, para a filosofia um sinal desta realidade após a morte, pois Deus não colocaria no íntimo do homem um tal anelo tão arraigado e o deixaria frustrado. Ao se deparar então com Jesus aquele jovem viu uma ótima ocasião para realizar seu sonho de eternidade. No entanto, era por demais apegado a seus bens materiais e jamais carregaria a cruz, seguindo a Cristo. Diz o evangelista que ele “entristeceu-se e afastou-se melancólico, porque tinha muitos haveres”. Caiu no anonimato, mas a História registraria os exemplos magníficos de Francisco de Assis, de Teresa de Jesus, de Inácio de Loyola, de Francisco Xavier, de Teresa de Calcuttá e tantos outros que seguiriam à risca o conselho dado pelo Mestre divino do ideal da pobreza total.
    É certo que para a salvação eterna, antes de tudo e sobretudo, a condição essencial é a observância dos dez mandamentos, aliados isto a um radical desprendimento pelas riquezas. Os mais perfeitos como os citados personagens vão além e se entregam a um despojamento completo. O jovem do Evangelho, embora observando até então o Decálogo, era muito materializado e isto era um empecilho para sua salvação eterna. Através dos tempos, a inúmeras mazelas morais se entregam os possuidores de grandes fortunas e a mídia continuamente apresenta as maiores aberrações que são cometidas pelos arquimilionários!
    É certo, porém, que há abastados que fazem de seus bens o instrumento precioso para a propagação do Evangelho, para a ajuda aos mais necessitados e não se deixam levar pelo espírito do mundo e suas ilusões. São os que confiam na graça divina, pois acrescentou Jesus “para Deus nada é impossível” (Mc 10, 27), ou seja, até um bilionário pode se salvar. No caso do jovem rico é de se notar ainda que na sua ignorância da espiritualidade e da santidade da Lei ele a observava de uma maneira inteiramente literal e exterior, dado que seu coração estava apegado ao que possuía.
    Cristo penetrou na chaga espiritual deste jovem, descobrindo o ídolo que ele adorava e que não estava disposto a afastar. Estava, portanto, dada para sempre uma advertência a todos os seus seguidores no que tange ao amor das coisas materiais. Com efeito, quantos há que, não detendo grande fortuna se afeiçoam, contudo, de tal modo ao pouco que têm, aos objetos de sua casa, que os sobrepõem aos valores espirituais, além de nunca confiarem na providência de Deus. É livre somente aquele que, fazendo tudo de sua parte e não endeusando o que possui, vive tranqüilo, contente com o que Deus lhe concede.
    A segurança de cada um não está no que possui, mas na graça divina. Esta passagem do Evangelho é um apelo a que não haja um excesso de pretensões desmesuradas. Deus nunca dispensa o despojamento do coração. Esta é a exigência de caráter geral e permanente para todos os batizados. No caso do jovem rico ele estava paralisado na sua afeição aos bens terrenos e lhe era necessário uma renúncia radical.
    A salvação eterna não é uma questão de mérito pessoal, mas de vontade aderida unicamente a Deus, mesmo porque cada um só se salvará pelos merecimentos do Redentor. Há, porém, algo que depende de cada um, isto é, a disposição de tudo sacrificar para ser fiel a Deus. Luta contra o comodismo e o desejo de tudo querer egoisticamente para si, ignorando os que sofrem e são marginalizados. Cumpre ter sempre consciência da caducidade das coisas humanas. A glória, os triunfos, as apoteoses passam para o silêncio do jazigo; as vestes roçagantes para crepes de um funeral; o orgulho, o egoísmo, a nobreza do mundo são pura ilusões que, irreversivelmente, hão de terminar!


* Professor no Seminário de Mariana - MG

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