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PLANEJAR AS VEREDAS DO SENHOR

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


      
Cada mistério da fé que se celebra através da Liturgia é uma renovação das graças específicas do evento comemorado. Não se trata de uma mera lembrança de fatos longínquos, ecos de epifanias divinas, mas, sim, de manifestações celestiais que possuem um valor atual, vivo, eterno. É algo presente, fecundo e operante. Cada recordação de Cristo é como uma expansão de sua virtude, como uma realização da graça que mereceu para todos durante sua vida mortal. Trata-se de uma nova visita do Redentor que se faz contemporâneo das gerações cristãs.
      Eis por que é sempre necessário acolher a diretriz de João Batista: “Preparai os caminhos do Senhor” (Lc 3,4). Isto significa que cada batizado deve dar um balanço na sua existência cristã para aquilatar até onde tem cooperado com o Projeto de Deus no contexto histórico de hoje e no lugar no qual a Providência o colocou. Verificar se em seu derredor está havendo uma revolução das mentalidades, dos procedimentos na vivência total do Evangelho que precisa impregnar a própria vida e a daqueles que, direta ou indiretamente, necessitam ser atingidos pela ação do Apóstolo de Jesus.
      O Natal não pode ser uma festa folclórica ou uma ida sentimental à gruta de Belém. Para o cristianismo a História não é circular, mas linear numa marcha para cima e para a frente. O passado deve ser um elã para o futuro, dado que a Encarnação e o Nascimento do Verbo de Deus são um ponto de partida de redenção universal, não um ponto de chegada. É por isto que, ano após ano, o roteiro traçado pelo Precursor possui sempre uma nova mensagem, dado que se trata do povo de Deus em marcha para o reencontro com o Salvador no fim dos tempos, oferecendo seu Natal a cada ano novas perspectivas para que o Seu reino esteja entre os homens.
      É preciso então encher os vales das injustiças humanas, aterrando-os com as obras de misericórdia, indo de encontro dos marginalizados. Isto supõe ainda derrubar as colinas da prepotência dos poderosos que fazem do povo massa de manobra. Deste modo, as tortuosas relações humanas se endireitarão, uma vez que há os lutadores corajosos contra a falsidade, os quais desejam e trabalham pelo império da Verdade.
      A bondade, o amor farão então maravilhosas as rotas terrenas, oferecendo a todos condições para a marcha triunfal até o regresso de Jesus. Cumpre, portanto, deixar o Espírito Santo agir para que a benevolência triunfe sobre a ira e o egoísmo. Na medida em que todos se deixam penetrar pelo júbilo do nascimento do Messias. Então no lugar dos amargos desencantamentos humanos, das desilusões terrenas, do cinismo, dos temores reinarão a imperturbabilidade, a tranqüilidade, a sinceridade e a paz interior.
      Este é o tempo em que o Espírito de Deus torna cada um mais paciente e tolerante apesar da turbulência ocasionada pelos telefones celulares, pela internet, pelos programas televisivos, pelos jornais eletrônicos ou escritos, que embora, por vezes úteis, impedem a viagem lá dentro do coração e o auto-domínio. Esta é a hora em que a graça divina quer apartar toda agressividade e apagar a rudeza nas relações mútuas.
      O convite de João Batista conduz à superação do pragmatismo, do desejo de prazeres imediatos que enodam a alma. É mister que cada um reavalie suas potencialidades, fugindo deste mal crônico atual que é a baixa estima. Quem acertou as veredas do Senhor verá então as reais necessidades alheias, as quais poderão ser atendidas não obstante as limitações dos recursos pessoais. Então o batizado procurará simplificar a sua existência, fazendo-se mais humilde e modesto e, até, em benefício da própria saúde chegar ao Presépio no peso ideal, orientado por um bom Nutricionista, longe da escravidão dos falsos deleites oferecidos pela sociedade de consumo que afasta do alimento e da bebida naturais muito mais deliciosas e saudáveis.
      A ceia de Natal, será deste modo, marcada pelo bom senso e longe das iguarias que matam o corpo e o espírito. É que, preparar os caminhos de Jesus, é mostrar e viver os valores do Reino que Ele veio instaurar entre os homens. Aí, sim,os votos natalinos serão uma realidade, fazendo melhor o mundo dos homens que Cristo veio redimir.

* Professor no Seminário de Mariana - MG

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