SURDEZ E MUTISMO ESPIRITUAIS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A cura do surdo-mudo operada por Cristo (Mc
31-37) vem lembrar a surdez e o mutismo espirituais de tão
graves conseqüências na vida do cristão. Como
em outras curas miraculosas, fica claro que em Jesus se realizaram
as promessas messiânicas anunciadas por Isaías: “Os
ouvidos aos surdos decerrar-se-ão [...] e desatar-se-ão
em cânticos a língua do mudo” (Is 35, 5-6). “Effatá!”,
isto é,“Abre-te!” foi uma ordem dada pelo Filho de Deus
de um significado profundamente sugestivo e de uma extraordinária
intensidade simbólica que convida a todos os batizados
a escutar a palavra divina e a proclamá-la por toda parte.
O surdo-mudo curado pelo Salvador evoca, portanto,
a situação daqueles que não se dispõem
a ouvir as mensagens do Ser Supremo, ou as tendo recebido, por
inércia, não as levam a outros no exercício
do múnus profético recebido no Batismo. Quantos
seres racionais, infelizmente, além disto estão
fechados em si mesmos, isolados de Deus e, por isto mesmo, longe
do bem a ser realizado a favor do próximo.
Cristo se dirige a todos de boa vontade para
lhes outorgar a atitude de confiança e de amor, mas cumpre
que, a exemplo daqueles que trouxeram o doente até ele,
se traga para junto dele os que se acham na escuridão do
pecado, nas trevas dos vícios. O Redentor é o taumaturgo
que sana as moléstias do corpo e da alma, oferecendo uma
total salvação para os que têm fé.
Abre para homens e mulheres o conhecimento de Deus e de si mesmo,
ostentando as portas da verdade, uma vez que Ele é a Verdade
(Jo 14,6).
Penetra dentro dos corações e
os ilumina. Os que já estão de posse da Verdade
precisam ser os intermediários junto das ovelhas tresmalhadas
ou das que nunca ouviram falar das maravilhas compendiadas na
Bíblia. Trata-se de um engajamento na evangelização
no serviço persistente.
Os que assistiram a cena da cura do surdo-mudo
exclamaram: “Ele tudo fez bem!” (Mc 7,37). Cristo é , deste
modo, o modelo para que se faça da atividade na sociedade
um obséquio eficaz, vindo de encontro à aspiração
humana a qual se acha lá dentro das consciências,
ou seja, o anseio pela descoberta plena da Verdade. É mister
seguir o conselho do Profeta: “Dizei aos corações
vacilantes: Sede fortes, não temais, eis o vosso Deus [...]
É Ele que vem vos salvar” (Is 36,4). Hoje mais do que nunca
é preciso anunciar, defender e difundir a doutrina cristã,
para que todos tenham uma cosmovisão correta, uma mundividência
luminosa, dando rumos acertados ao mundo e a toda a história
dos homens. Muitos perderam o sentido último da vida e
a razão de ser no itinerário que deve conduzir cada
um até o seu Princípio Supremo que é o Criador.
Quando não se é surdo-mudo é
possível percorrer os caminhos da existência sem
perder de vista o Onipotente. Santo Agostinho, o Mestre do Ocidente,
assim se expressou num momento de sublime inspiração:
“Vós nos fizeste para Vós, ó Senhor, e o
nosso coração não está em paz, Senhor,
enquanto não repousa em Vós” (Conf 1,1). Eis aí
a tarefa de quem encontrou a Deus: viver e testemunhar de maneira
sábia, competente e eficaz a relação entre
o contingente e o Necessário, entre o finito e o Infinito.
Isto meio do grande Pontífice Jesus Cristo que estabeleceu
a ponte entre a terra e o céu.
O lugar em que cada cristão vive é
o espaço privilegiado para este apostolado tão necessário,
abrindo os ouvidos aos surdos e desatando a língua dos
mudos. Eis aí a mais sublime das empreitadas daqueles que
já conhecem a Verdade: colocar no altar da consciência
do próximo a Boa Nova que vivifica e redime. Num contexto
de tantas controvérsias e deturpações isto
se faz ainda mais urgente.
A cultura hodierna tende a reduzir o horizonte
do conhecimento ao material e afasta o ser racional da realidade
última. Daí o cuidado espiritual para com o próximo
e uma ação eficaz de animação evangélica
que se torna uma iluminação para as almas decepcionadas
pela materialidade reinante. Ajudemos a Cristo a curar os surdos-mudos
espirituais e o mundo será melhor!
*
Professor no Seminário de Mariana - MG
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