Você acredita que é possível o exercício da política sem corrupção? Acha possível organizar uma sociedade sem explorar trabalhadores(as)? Você julga que seria infantilidade imaginar uma sociedade onde os serviços de saúde, educação, abastecimento de água etc. pudessem ter um caráter social, sem a preocupação com o lucro? É viável reduzir o consumismo e incentivar a solidariedade?
Bem, essas questões são apenas para perceber como todos nós estamos por demais envolvidos num sistema chamado de “pensamento único”. Conseguiram nos fazer acreditar que a corrupção sempre vai existir, que político é tudo igual, que a exploração faz parte das relações de trabalho, que o lucro é fundamental, que é preciso consumir cada vez mais… E assim por diante.
Você deve conhecer aquele texto inspiradíssimo da Marina Colasanti, onde ela diz que nós nos acostumamos com tudo; até com aquilo que não deveríamos nos acostumar: acordar sobressaltado, comer sanduíche às pressas, fazer hora extra, cochilar no ônibus por cansaço, aceitar a guerra e a violência, não receber sorrisos, ser ignorado, ganhar menos do que precisa, fazer fila para pagar e pagar mais do que as coisas valem, engolir comerciais, aceitar a contaminação, a poluição, a morte precoce… Fica no ar aquela sensação: “é assim mesmo”, “o que posso fazer?”, “não tem outro jeito”.
O Fórum Social, gestado no Brasil há alguns anos, e que já reúne pessoas e grupos de inúmeros países, quer ser uma voz na contramão do pensamento único, da mesmice, da acomodação, da indiferença. Vem levantar a bandeira do alternativo, da diversidade, do diferente.
Com a queda do muro de Berlim e a crise do socialismo real, ficou a impressão de que o capitalismo neoliberal é a única maneira de se organizar o sistema político; de que o mercado é que dita os rumos de todas as decisões; de que o lucro e o consumo são as leis que contam. Por meio da grande mídia, expressão e sustentadora do capitalismo, conseguiram impor, sobretudo ao ocidente, a cultura da futilidade.
São muitos os que perdem o sono, afogados num mar de cifras, taxas de juros, cartões de crédito e de débito, oscilação de bolsas de valores. Perdem a paz, agitados pelas ondas, entre a ânsia de acumular e o medo de perder. Outros não encontram a paz por não ter o que comer, onde morar, como cuidar da saúde, onde encontrar segurança. E uma das grandes responsáveis por tudo isso é a gritante desigualdade social. Desigualdade que envergonha os cidadãos que ainda trazem um mínimo de sensibilidade ou desejam perpetuar o princípio cristão do amor ao próximo.
Nessa guerra da competição egoísta, as maiores vítimas são as minorias e os mais enfraquecidos: pobres, afro-descendentes, indígenas, mulheres. Mas também os grandes sofrem as consequências dessa opção. As crises têm mostrado a extrema fragilidade de todo esse sistema aparentemente forte e estruturado. É um sistema homicida e, ao mesmo tempo, suicida. Não se sustenta por muito tempo.
Por isso, o Fórum Social defende alternativas. Um outro mundo é possível. Explorar a natureza sem destruí-la e sem explorar a pessoa é possível. Política sem corrupção é possível. Administrar e governar com equidade, proporcionar maior segurança, dar oportunidade a todos é possível. Não transformar a água, a educação, a saúde, a religião em mercadoria e fonte de lucro é possível. É possível e faz bem aceitar a diversidade, exercitar a tolerância, respeitar a liberdade, promover o direito. O Fórum se tornou um espaço privilegiado para recolher, refletir, sistematizar, defender e divulgar a utopia desse sonho possível. Mais ainda, tornou-se ponto de convergência para uma grande multidão de profetas da esperança que não encontravam terreno propício para espalhar suas sementes de sonhos e sua sede de justiça.
A Arquidiocese de Mariana está realizando, em Ponte Nova, a quarta edição de seu Fórum Social pela Vida. Lideranças dos vários Municípios e paróquias se encontram para celebrar as conquistas, refletir a prática, projetar caminhos alternativos. Venha se ajuntar a esse grande mutirão de cidadania e da fé. Façamos coro aos porta-vozes da esperança, e cantemos com o Zé Vicente: “Vai ser tão bonito se ouvir a canção cantada de novo. No olhar da gente a certeza…”






