Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Mestre admirável, Jesus com uma pedagogia divina ministrou sábias diretrizes a seus discípulos, mostrando-lhes os verdadeiros valores e denunciando as falsas concepções no que tange as riquezas terrenas. Assim a parábola do homem rico (Lc 12,13-21) deixou claro que “a vida de um homem não consiste na abundância de bens”, mas cumpre, isto sim, “ser rico diante de Deus”.
Condenou claramente a ambição dos que colocam todas as suas esperanças numa fortuna acumulada, esquecidos de ajuntar um tesouro nos céus através da prática das virtudes, utilizando-se do que se possui neste mundo como meio para cumprir com dignidade uma missão dentro da história e para depois receber a recompensa perene na Casa do Pai. É preciso pensar nas provisões celestiais futuras que Deus oferece aos que nele crêem. Cristo não deseja, contudo, que seu seguidor seja imprevidente, insensato, mas sim que ele não queira se apegar às coisas desta terra.
Lemos na Carta aos Hebreus: “Não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura” (Hb 13,14). O que Jesus, portanto, condena a má utilização daquilo que se tem e adoração do dinheiro como fim último do homem e não como instrumento para sua sobrevivência e para fazer o bem ao próximo, tendo em vista a salvação eterna. Trata-se de uma sábia filosofia de vida e, por isto, Cristo aconselhou: “Procurai antes de tudo o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 16,33). Eis porque Ele pregou o total desapego: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,3). Donde o sábio conselho de São Paulo: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3,1).
O cristão não se apega ao que é transitório e dá um significado teológico-espiritual à sua passagem pelo presente exílio. É o caminho para se vencer o pecado, uma vez que o foco é a riqueza lá no céu e não aqui em baixo. Cumpre uma projeção inteligente para um porvir certo, beatífico Isto comunica uma disponibilidade interior admirável e faz com que, paradoxalmente, se usufrua muito mais da vida presente por se cultivar em plenitude o dom da ciência. Este, com efeito, tudo transforma em degrau na ascensão para Deus e abre os olhos para as maravilhas espalhadas pela sabedoria divina mundo todo.
Como acontecia com muitos santos que ao contemplarem a beleza de uma flor, logo refletiam sobre a beleza infinita de Deus. Ao invés de querer ter um jardim imenso só para si, se situavam tranqüilos no grande templo do universo. Muitos são aqueles que repetem o sábio adágio “não sou senhor do mundo, mas sou filho do Senhor do mundo” e vivem contentes com o que possuem, longe de toda e qualquer avareza.
São os que, segundo o Apóstolo, tomam o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6,17). Tal cristão liberta o seu coração para Cristo e está sempre contente com o que possui, embora jamais se entregando a um determinismo condenável, pois sabe que a Providência divina não vai contra a previdência humana.
Deste modo, o discípulo de Cristo encontra o ponto de equilíbrio que o homem rico da parábola não possuía. O cristão vive na terra, mas curte a esperança da vida futura, lembrado do que disse São Paulo: “A nossa cidade está nos céus, de onde esperamos ardentemente, como salvador, o Senhor Jesus Cristo, que há de transfigurar o nosso corpo de miséria para o conformar com o seu corpo de glória, em virtude o poder que Ele tem de submeter a si todo o universo” (Fl 3,20 s). Lá não haverá “morte, pranto, grito, dor” ( Ap 21,3). É então uma insensatez perder, pelo apego aos bens terrenos, a felicidade e alegria sem fim.
* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.






