Parte do clero arquidiocesano participa, de 12 a 15 de julho, do Retiro dos padres e diáconos, realizado no Seminário Maior, em Mariana. Orientado pelo bispo da Diocese de Barra (BA), dom Luiz Cappio, o retiro tem como tema norteador a espiritualidade do clero.
Atendendo ao convite do arcebispo de Mariana, dom Geraldo Lyrio Rocha, dom Cappio, agradecido, se mostrou feliz por prestar este serviço e falou um pouco da temática do encontro. “Como estamos no Ano Sacerdotal, toda a temática, as palestras, celebrações e os momentos de oração estão no entorno da espiritualidade sacerdotal: a vida do presbítero, sua relação com Deus e sua relação com o povo”, revela.
“A missão fundamental do presbítero é levar a palavra de Deus, celebrar a Eucaristia e ser, no meio do povo, sinal de salvação”, relembra dom Cappio quanto à missão do presbítero. “Missão de ser um comunicador da fé, da Palavra de Deus”, completa.
Ao todo, 55 pessoas participam das atividades até a próxima quinta-feira, 15.
Transposição do São Francisco
Dom Luiz Cappio ficou mundialmente conhecido pela luta em defesa do Rio São Francisco contra sua transposição, fazendo em dois momentos (2005/2007) jejum como forma de protesto aos projetos do Governo Federal. A partir de então, os planos de transposição ganharam visibilidade nacional e até internacional, assim como sua luta em defesa do Rio.
Dom Cappio faz duras críticas ao governo afirmando que seu principal objetivo havia sido alcançado. “Cada vez mais se concretiza tudo aquilo que dizíamos. O projeto foi iniciado, está praticamente parado, apenas com algumas obras de pequeno porte em andamento, e pelo que nós sabemos, ele não tem condições de chegar até o fim por causa dos recursos altíssimos e das complicações de ordem social, ambiental e até de ordem legal, porque este é um projeto totalmente anticonstitucional, que foi imposto pela vontade de um governo. Então, ele está fadado a não chegar ao fim. Eu até diria que a finalidade do projeto foi alcançada, que é angariar fundos para estas eleições, muito dinheiro para as eleições presidenciais desse ano”, acusa dom Cappio. E, para ele, caso o projeto tenha continuidade ou pare por aqui, no atual contexto, isso se torna um fator secundário.
Contudo, o bispo garante que a luta não terminou. Mesmo o governo tendo uma postura de “cego, surdo e mudo”, como alega, ainda segundo dom Cappio, o próprio Supremo Tribunal Federal tem colaborado pra esse estado de esfriamento dos atos, pois existem várias ações pendentes que, se fossem julgadas em tempo hábil, o projeto não teria condições de ter sido levado à frente, porque todas as ações, segundo garantiu, demonstram a inconstitucionalidade do projeto, mas que por determinação do Governo Federal ele foi levado adiante.
O papel da Igreja
Para ele, a participação da Igreja é fundamental nesses projetos que trazem decisões de cunho social para o debate. “Eu acredito que o que todos nós podemos fazer e, com certeza chegou o momento, embora não caiba a nós (Igreja) participarmos da política partidária, mas é um dever nosso de consciência alertar pra uma realidade, é termos aí a possibilidade de elegermos a continuadora de tudo isso. Então, esse é o grande momento de demonstrarmos nossa indignação e nossa posição contrária como cidadãos, como Igreja, como qualquer um”, comentou.
“Essa deveria ser a reação do cidadão brasileiro e, de modo especial, nossa como Igreja. Afinal de contas, temos nas mãos uma arma muito poderosa que é o nosso voto. Vivemos numa sociedade democrática e dependendo do voto que vamos dar nessas eleições vamos levar adiante todos esses absurdos que estão aí. Por outro lado, podemos colocar um basta em tudo isso”, concluiu o bispo afirmando que o Projeto Ficha Limpa é parte desse avanço e pode ser considerado uma vitória, mais um passo positivo diante da luta social contra os abusos cometidos pelos políticos.
Caminho alternativo
De acordo com Cappio, existem alguns caminhos alternativos para o projeto de transposição do São Francisco, e essas alternativas sempre existiram. “Eu já dizia isso naquela época do jejum. O próprio governo, através da Agência Nacional de Águas (ANA), já tem o projeto alternativo”, garantiu.
Ainda segundo o bispo, são dois os projetos: um através da Agência e o segundo é o de transposição. “O ‘Atlas do Nordeste’ (ANA) é um conjunto de projetos hídricos pra levar água às comunidades carentes, difusas, de todo o nordeste brasileiro, que tem como prioridade abastecer estas localidades. E, ainda, tem o projeto de transposição que o governo brasileiro, ao invés de optar por este outro alternativo que é constitucionalmente correto, economicamente viável, socialmente e ecologicamente praticável, fez sua opção pelo projeto de transposição. O próprio governo tem suas alternativas, mas preferiu pela transposição porque atende a grandes interesses transnacionais”, disse.
Dom Cappio sempre defendeu a manutenção dos açudes, visto que estes têm capacidade de abastecer as comunidades carentes. “Nós temos aproximadamente 70 mil açudes. Somente um (o Castanhão, no Ceará – o maior de todos eles) é 13 vezes maior do que a Bahia de Guanabara (RJ). Então, água não falta, mas esta é uma água acumulada, represada. O que é necessário é a democratização desta água: levá-la para as comunidades carentes. E, o projeto de transposição visa a segurança hídrica, ou seja, ainda aumentar o contingente dessas águas, quando o projeto alternativo tem o intuito de levar essas águas que estão todas nos açudes e no Rio São Francisco para estas comunidades. Por isso que desde o começo nosso grito tem sido esse: levar adiante os projetos alternativos do próprio governo para que as comunidades tenham água acumulada nos açudes e no Rio”.
A luta continua viva
Mesmo o governo tendo levado à frente o projeto de transposição e alcançado seu objetivo, segundo dom Cappio de financiamento eleitoral, ele acredita que a luta continua viva. “Ela continua vivíssima e eu percebo que principalmente fora do Brasil o mundo inteiro se preocupa com estas questões hídricas”, garantiu o bispo ao relatar o que pôde constatar durante sua última viagem à Europa, realizada recentemente. “A gente vê na Alemanha, Suíça, Áustria, a preocupação que eles têm em relação à escassez da água, porque eles sentem muito mais de perto esses problemas do que a gente. No Brasil, ainda vivemos em berço esplendido: não nos falta água. A grande indignação da população européia mais desenvolvida em nível de consciência é ver que o Brasil investe um dinheiro altíssimo como, por exemplo, no projeto de transposição, utilizando tecnologias totalmente ultrapassadas”, comentou dizendo que o que está sendo feito no Rio São Francisco e em Belo Monte, no Xingu, faz uso de uma tecnologia de 20, 30, 50 anos atrás.
Atualmente, além dos problemas hídricos apontados não somente no Brasil, mas em toda a América Latina, África e de outras regiões no mundo, o derramamento desenfreado de óleo no Golfo do México é o que tem preocupado os países europeus. “Esse problema do petróleo especificamente nesta localidade está apavorando o mundo inteiro. Esses países que não têm a abundância de água que temos aqui no Brasil e na América Latina têm muito mais sensibilidade a estas questões porque suas carências são maiores”.
Para que a população possa despertar o interesse e a vontade de querer defender aquilo que está se degradando diante do grave e atual cenário revelado no Brasil, dom Cappio acredita que, antes de tudo, tem que haver liberdade de expressão. “No Brasil, neste momento, estamos vivendo uma ditadura explícita, em que a última voz é a do governo, e ele dita as normas. Podemos observar que toda imprensa está sendo manipulada. E em segundo, precisamos ter um nível de consciência mais assumido por parte da população”.
Eleições 2010
Segundo o bispo de Barra, este é um ano de transição política e, com isso, fica o impasse diante da população e a possibilidade de poder alterar o atual cenário. “Esse ano é um ano de eleição. Qual será o resultado? Levar adiante esse mesmo modelo ou, quem sabe, alguma mudança? Este é o grande momento! Nós temos a possibilidade de uso da liberdade e da consciência, mas nem todos sabemos fazer uso devido da liberdade que deveríamos ter e da consciência que deveríamos alcança”, alerta Cappio.
“Nós como Igreja: bispos, padres, o laicato, a comunicação, temos o dever de levar essas notícias todas para que, com o tempo, o povo tome consciência mais aguçada de tudo isso”, completou.
Minas Gerais: berço do São Francisco
“O berço do Rio São Francisco está aqui em Minas, mas não apenas o do Rio, mas da nossa nacionalidade, da nossa brasilidade e do espírito cidadão. Estamos aqui pertinhos de Ouro Preto onde o grande mártir Tiradentes morreu: hoje o herói da pátria, mas na época foi enforcado. Acredito que nós deveríamos aprender com a história e sabermos que o poder nunca será exercido em benefício do povo, do pobre. Sempre será exercido a favor das elites. Se o pobre, o pequeno, quiser ter voz e vez, ele precisa se organizar e lutar. Pois, somente a partir da luta e da organização que ele alcança alguma coisa. E, nesse sentido, a Igreja tem um papel muito grande”, disse acrescentando que em sua Diocese, localizada no sertão da Bahia, a prioridade pastoral é a organização das comunidades, para que o povo cresça na dimensão da fé e do espírito cidadão. “Acho que esse é o grande desafio pra nós Igreja: formar cristãos e cidadãos”, finalizou.
Fotos do Retiro:










